Então é isso. Transformamos em estatística aquilo que era vivo.

A Copa do Mundo de Futebol Masculino 2026 acabou de acontecer e eu me deparei com uma coisa que eu venho percebendo há muito tempo e venho me irritando internamente com isso faz um tempo já.

É impressionante como nós temos o péssimo hábito de absorver para a nossa cultura muita cultura estadunidense ou, como eu gosto de dizer, usamericana, né?

Transformamos o futebol numa indústria de números e estatísticas e informações que falam muito pouco do que é assistir a uma partida de futebol, vibrar, sofrer, torcer, ficar angustiado, ficar eufórico, ver um time jogando como música ou ver um time sofrendo para fazer a proposta da equipe funcionar, ver o técnico desesperado, ver o goleiro desesperado, ver um atacante se desmanchando porque a primeira chance real de gol dele foi aos 30 minutos e ele chutou para fora.

Viver a experiência do futebol está morrendo. Nós nos transformamos em um monte de produtores de conteúdo, seja televisivo, seja na internet, nas redes sociais, nos supostos canais especializados em futebol, numa indústria que debate números e números e mais números e estatísticas e chances reais e 3-5-2, 4-4-2, 3-6-1, 5-4-1, é um monte de esquemas táticos, esquemas de jogo, estratégias de jogo e não sei mais o quê.

Tá, mas e o jogo? E a experiência do jogo? E aqueles jogadores, como eles se envolveram? Estavam num dia bom, estavam num dia ruim? ‘Não, porque ele costuma dar 50 passes e ele só deu 40.’ Caguei! Isso não diz o que é um jogo. Isso não diz o que é o futebol.

Uma partida de futebol vai muito, muito além do que números, estatísticas. Está chato, está vazio, sabe?

E é uma mania do estadunidense, transformar todo esporte em estatística, em número, em qual recorde foi quebrado, qual efeméride aconteceu nesta partida.

Foda-se! Caguei!

O que foi essa partida? Qual a importância dessa partida? Qual a história dessa partida? Quais as quais as nuances que os números nunca vão te dar?

É por isso que quem pega os números de uma partida nunca sabe o que aconteceu na partida. Ele não sabe o que foi a partida porque o número não te diz isso. O futebol não é um esporte de estatística. E não adianta querer dizer que é, porque não é. Não é. É outra coisa.

O futebol, ele tem outras questões , como a proposta de jogo, de como a equipe jogou, de como aquele craque desempenhou para a equipe e para o jogo, qual o astral que estava, como a torcida se movimentou junto à equipe, se a equipe trouxe a torcida, qual o tipo de torcida a gente tem hoje. Isso é o futebol. O vivo.

3-5-2, xG, probabilidade de fazer gol, ‘ah, porque a posse de bola em percentual’… Foda-seeeee! Isso não diz o que é a partida. Não diz o que é a partida!

A partida, ela é vivida, ela é experimentada. Há nuances, nuances e nuances que só no decorrer de uma partida vista como um ato completo, tal qual uma peça de teatro e um filme precisam ser assistidos até o final para que você absorva toda a proposta daquele batalhão de pessoas que produziu aquela peça cultural, aquela arte.

O futebol é assim. Ele precisa ser assistido do início ao fim. Cada apito do juiz, cada toque de bola, cada movimentação. Há uma história sendo contada. Há uma música sendo composta.

Números não traduzem o que é o futebol. Parem de olhar as estatísticas, parem de olhar os números. Não é sobre isso. Não deve ser assim.

Uma partida de futebol não é sobre número.

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