Como praticamente todos os meus textos, este aqui também teve como gatilho uma conversa qualquer, com uma pessoa qualquer, em um momento qualquer. Não uso aqui o termo “qualquer” como pejorativo ou desvalorização da pessoa, mas para que entendam que o principal aqui é a conversa sobre conceitos, sobre comportamento, sobre ideia. Nunca sobre pessoas.
Havia uma conversa. Era entre eu e a Jovem (ou qualquer nome que você quiser). A conversa ainda passeava por amenidades (coisa que eu tenho uma preguiça gigante, inclusive), quando, em determinado momento, ela se tornou uma conversa sobre as relações pais-filhos e a questão do respeito. Ela (a Jovem) narrava o desafio de ela conseguir, às vezes, impor o respeito.
Como você deve imaginar, se me conhece só um pouquinhozinho, que essa expressão disparou uns 789 gatilhos e uns 987 alarmes, simultaneamente.
Impor o respeito.
Im-por… (soando assim, pausado e com eco)
O uso do termo em si, pra mim, já costuma ser incômodo. Em quase qualquer contexto que o termo é utilizado, ele soa hostil pra mim. Às vezes ele não apenas soa hostil, ele é realmente hostil.
A questão é o contexto. (Ah, sempre ele: o contexto)
Respeito, por si só, já não é algo que se impõe. Respeito se conquista, se cativa, recebe, etc. Há bastante verbos que podem ser aplicados ao termo respeito, mas nenhum deles é impor. Para piorar o caso, o contexto da conversa era relação pais-filhos. Daí que zebrou de vez o que já estava ruim.
Gritar, ameaçar, bater, nada disso resulta em conquista de respeito. Em NENHUMA relação, na vida. Talvez construa relação baseada em medo. Provavelmente algum vestígio de submissão. Tons de temor. Respeito? Não, isso não.
O termo impor deriva do latim imponere, formado pela aglutinação do prefixo in- (que indica movimento para dentro ou posição sobre algo) e o verbo ponere (colocar, pôr). A palavra compartilha a mesma gênese de termos como imposto (o que foi imposto pelo Estado) e impostura (originalmente, o ato de colocar algo falso no lugar do verdadeiro).
Estamos falando de relações humanas. Não faz sentido conter este comportamento na lista “como me comportar com outras pessoas”. Talvez faça sentido para alguns, aqueles que nutrem desprezo pelo conceito de “relações de igualdade” (tipo uns “naro” por aí).
Curiosamente, estas relações, estruturadas desta forma (respeito imposto) possuem uma profunda relação com a estrutura religiosa hegemônica no ocidente, a famigerada “judaico cristã”.
Momento Telecurso 2000:
A “imposição de respeito” não é um fenômeno isolado, mas o subproduto de uma cosmologia hierárquica que utiliza a transcendência para validar a dominação terrena. As estruturas religiosas forneceram o arcabouço (simbólico) e a validação (moral) para que o respeito fosse compreendido não como um diálogo entre sujeitos, mas como uma imposição de cima para baixo, servindo de base para modelos familiares, escolares e políticos autoritários que ainda persistem no tecido social ocidental.
Daí que um dos resultados obtidos, em pleno 2026, é que ainda ouve-se pais, avós e outros tipos de adultos lamentando que não conseguem “impor respeito” aos jovens. Em geral, gente frustrada por não saber lidar com as idiossincrasias dos jovens (de todas as espécies de jovens).
Impor respeito. Im-por…
Às vezes, quando eu me distraio por alguns dias e chego a acreditar que há esperança na humanidade, ela me faz o favor de me lembrar que isso nem faz sentido.
Eu sei que este é um texto cheio de platitudes e muitas coisas óbvias, mas eu não sei em que mundo você vive, eu não sei quais planetas orbitam sua vida, eu nem sei quando você está lendo.
O que posso te dizer é que, infelizmente, em pleno 2026, ainda há quem considere razoável cogitar que RESPEITO seja algo IMPOSTO.
Isso, por si só, mostra o quando a humanidade segue sendo estruturalmente patética, majoritariamente.