Existe uma conversa que, há muito tempo, venho tendo comigo mesmo, refletindo sobre ela, dialogando com as minhas leituras e com os conteúdos de produção de outras mídias, algo além da minha própria cabeça confusa. A questão é: é possível produzir alguma manifestação cultural de forma que os recursos que custeiam essa produção não estejam banhados por poderes financeiros e estruturas de poder que nós não apoiamos, não gostamos, odiamos e da qual tenhamos pavor?

Explico. Eu estava assistindo a um vídeo de um canal no YouTube chamado Ora Thiago (ora de “ora bolas”), um conteúdo muito bom, em uma discussão que surgiu por causa do investimento de uma empresa envolvida com o genocídio palestino (Sequoia Capital), envolvida com as potências militares do governo de Israel. Essa empresa investiu na Mubi [a da ecobag azul, sabe?] que, até outro dia, era a queridinha dos cinéfilos e de uma vertente um pouco mais progressista, digamos assim, do cinema internacional.

Qual é o ponto? O ponto, que ele mesmo levanta (e que há muuuito tempo eu também levanto), é: é possível produzir cinema, cultura, podcast, ou manter algum tipo de plataforma cultural em você vá postar seus textos, vídeos, áudios, sem que o capital explorador do capitalismo toque nisso?

Dou um exemplo. Eu posso ter um podcast com um viés progressista, antirracista, anti-homofóbico, antimachista, antimisógino, no Spotify, por exemplo. O Spotify, por sua vez, tem tido problemas por ser uma estrutura de exploração de milhares de músicos. Ou posso ter um podcast no YouTube, que também não carece de problemas. Diante disso, restará publicar onde? Em qual plataforma eu vou conseguir publicar este conteúdo sem que essa plataforma seja descaradamente problemática ou que, veladamente, ela não tenha investimento de quem é problemático?

Por que esse dilema? Esse dilema ressurgiu da seguinte questão: como escapar disso? Estou levantando uma pergunta para a qual eu, sinceramente, ainda não tenho resposta. Não tenho uma solução e não vim trazer uma solução. Inclusive, raramente apresento soluções.

[pausa: se alguém sempre tem uma solução na mão, suspeite. Em geral, nenhuma dessas soluções atende ao seu problema, pois não há como alguém ter uma mesma solução para todo mundo, a não ser que ela seja genérica o bastante para caber em qualquer problema, o que significa que logo ela não oferecerá solução para ninguém.]

Voltando à questão: o quão também não é um movimento de [como posso me expressar de uma forma que a minha palavra não seja distorcida? Não há como!] “insurreição” o de aproveitar o capital que veio do lugar errado para fazer a coisa certa?

Entende o ponto? Às vezes, não para todos, mas para parte da nossa produção cultural e contracultural (anti status-quo) parte da nossa produção de informação, conteúdo e afins, que sejam progressistas, utilizar dinheiro oriundo de lugares escusos não seria uma forma de subversão?

[pausa, novamente: eu não digo produzir conteúdo que enalteça a m*rda toda, é o contrário disso, inclusive. Ex: fazer um documentário anti-bets com recurso das bets.]

Pense: esse dinheiro que, para citar um exemplo, se eu quero fazer um filme que apoie causas antirracistas, e quem vai me dar o dinheiro, sei lá, tem gente lá no meio que é da K* Kl*x Kl*n. O sujeito da 3K, se depender dele, só vai patrocinar produtos culturais racistas, até porque, essencialmente, é isso que eles são. No entanto, se ele tem o dinheiro dele em um fundo de investimento que possui outras origens ali (e a maioria, assim como o bilionário não deveria existir, os [grandes] fundos de capital são majoritariamente compostos por milhões e bilhões de dólares de capitalistas que estão colocando dinheiro em coisas para gerar mais dinheiro), e esse fundo coloca o dinheiro em um lugar que está me bancando para fazer um produto cultural progressista, eu não estou tirando o dinheiro de quem estaria fazendo um produto reacionário?

Eu sei que parece que estou tentando, de certa forma, atenuar ou pintar de rosa uma situação que é mais complexa do que isso, mas entende qual é a proposta que estou colocando aqui? Se não há muito para onde escapar, que tal tentarmos subverter? Que tal nós, que temos como fazer isso, fazermos?

[e eu me coloco nessa posição, embora não seja um produtor de conteúdo de grande mídia para o YouTube ou outras plataformas, sou apenas alguém por quem, por um acaso, você chegou até aqui para me ler ou ouvir, seja qual for a forma que você chegou até essa conversa]

Pense comigo: existe uma forma, além desta que estou propondo, de retirar o dinheiro da produção daquilo a que sou contra e colocá-lo na produção daquilo a que sou a favor? Existe uma forma mais fácil do que extrair o dinheiro de lá? Esse dinheiro já está ali e será usado por alguém; será direcionado para algum público. Não é melhor que ele seja direcionado para uma pauta que é a nossa, algo que seja, no mínimo, progressista?

Se nós não temos recursos próprios para lutar contra a exploração do trabalhador e para financiar pautas progressistas que tenham como ideal o fim da opressão dos grupos minorizados, já que o recurso disponível provém do que é deletério, não é melhor usá-lo para mitigar esse mal, em vez de deixá-lo disponível para quem deseja exacerbar o que já é terrível?

Enfim, venho pensando sobre isso há muito tempo, querendo verbalizar sobre essa questão. Esta é a primeira vez que tento estruturar minimamente um pensamento sobre o assunto. Novamente, não tenho solução, mas tenho, aparentemente, uma opinião.

Qual é a sua?

Links:
Ora Thiago
Mubi responde críticas a investimento de empresa ligada a Israel

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