2025-07-07 Infinito peculiar

Naquela manhã as coisas se apresentaram de um jeitinho peculiar, mas a sensação não era boa. Pragmático que era, ele ignorou o que sentia enquanto o relógio marcava 08h08. “São apenas sensações, ignore isso, prenda-se aos fatos.” Acontece que ele havia dormido na poltrona. (Importante: poltrona não é sofá, poltrona é para uma pessoa só.) E dormiu com as pernas tão juntas que nem parecia que era ele ali, às 08h09 da manhã.

Depois de muito esforço, conseguiu se erguer da poltrona e foi passar um café. “Café! É isso que eu preciso agora. Urgente.” E lá foi ele passar seu café coado. Quando a água ainda nem havia fervido, distraído, pegou de mau jeito na alça da panela e, de súbito, lançou a mão à boca, sem soltar nenhum grito, mas novamente ele não se sentia ele. O relógio marcava 09h06 da manhã.

O jeito é ir tomar um banho e tentar concluir o download da alma. Foi buscar uma toalha limpa na área de serviço e “precisou” fazer um baita contorcionismo (sim, desnecessário, mas lhe parecia prático), alongando o tronco à frente e esticando os braços. Aquela sensação estranha de ele não estar sendo ele, enquanto seu corpo ficava naquela posição, o atingiu novamente e ainda era 09h07 da manhã.

Liga chuveiro. Coloca o dentifrício (sim, jovem imberbe, esta palavra existe) na escova (obviamente, de dente) e se dirigiu para o box (porque ele não tomava banho de pé sobre uma banheira com cortina de plástico, porque isso é coisa de europeu e estadunidense, coisa que ele certamente não era). Se alinhou com a água que descia do chuveiro quase como 1 poste, para que seu corpo ficasse completamente envolto pela torrente de água quente que descia. Funcionou, porém, mais uma vez, não se sentia ele mesmo. Era uma manhã estranha, definitivamente. Não pela rotina, mas por esta sensação incômoda e estranhamente frequente de não se sentir ele mesmo. Enfim, 09h11, enquanto seguia seu ritualístico download da alma, durante o banho, com aquelas reflexões que normalmente nos acometem exatamente quando estamos ali.

Saindo do banho, enrolado na toalha, foi escolher qual roupa vestiria para sua jornada do dia. Foi quando se deparou com uma dúvida entre 2 pares de tênis. Acontece que ele NUNCA ficava em dúvida entre qual roupa vestiria. Por hábito, ele apenas pegava a roupa mais prática para a jornada prevista e se vestia. Mas, naquela manhã estranha, ele se viu travado entre as opções tenisísticas. Claro, percebeu novamente que aquela sensação de ele não ser ele o atingia naquele momento. Por fim, depois de 4 minutos refletindo, escolheu o tênis, passou o protetor solar e partiu. 10h00, hora da caminhada.

Ele não costumava caminhar ouvindo música, gostava de caminhar, sem pressa, ouvindo audiobook. Naquele dia o livro era 1984. Ele frequentemente precisava retornar quase 1 ou 2 minutos no tocador de áudio, porque se perdia em devaneios, imaginando extensões entre a narrativa do livro e sua vida. A finitude de sua vida sempre foi um tema recorrente em seus pensamentos, por inúmeros motivos, mas o tema sempre estava lá, perambulando por seus pensamentos. Especificamente, naquele dia, uma cena entre o protagonista, Winston Smith, e mais dois conhecidos de trabalho o captou. As 3 pessoas na cena pareciam tão perdidas naquele mundo distópico. “Como eu agiria nesta situação? Certamente eu me veria em apuros. Ou será que…”

Enquanto se perdia em devaneios, picou o pé em uma micro reentrância da pista de caminhada e se estabacou de tal forma que, quando parou, seu corpo estava estatelado no chão feito uma estrela de 5 pontas. Ele ficou ali, entre o susto e a revolta com ele mesmo!! Tentou se recompor, na medida do que era possível. Respirou fundo. Nada quebrado, apenas o orgulho. “Por que será que nosso orgulho se abala tanto quando tropeçamos e caímos?” foi a pergunta que, voltando para casa, foi tema de suas reflexões. Hora de outro banho e trabalhar.

No relógio, 11h00. Novamente a torrente de água e seu corpo como 1 poste. A dúvida entre 2 camisetas para vestir, a cena do livro com os 3 personagens na mente, 4 minutos até escolher qual camiseta, lembrou-se do corpo estabacado no chão feito a estrela de 5 pontas. As 6 horas de expediente adiante se transcorreram bem e podia enfim descansar, às 7h da noite. Foi, certamente, um dia bastante estranho, mesmo que ordinário, que começou com suas pernas coladas, uma na outra, parecendo uma perna só, feito um 9. Mas o dia estava acabando. No relógio, 10h00 da noite. Hoje se deitaria na cama, na sua cama INTEIRA para ele. Deitado, ali, com seus pensamentos e sonhos, ele se sentia livre, ele sentia que se tornava infinito.

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