Há muito tempo venho pensando sobre isso, e decidi praticar mais frequentemente a escrita dos meus devaneios. Tem gente que não gosta, então lembre-se: você não é obrigado a continuar lendo este texto.

Já faz alguns anos – algo perto de 20, 21, talvez 22 anos atrás – que assisti presencialmente, no Palácio das Artes, a uma entrevista guiada, que durou mais de uma hora, com Domenico De Masi. Ele falava sobre o ócio criativo. Desde então, venho vivendo um conflito, porque, a partir daquele momento, minha consciência de classe foi se fortalecendo – ganhando robustez em informação, argumentação e convicções – baseada principalmente em argumentos filosóficos, práticos e histórico-econômicos. E o ócio se tornou um conflito dentro de mim.

Acontece que a discussão sobre o ócio – tanto seu valor para a humanidade, seu valor na qualidade de vida, seu valor como motor criativo, como promotor de oportunidades criativas, seu valor dentro da luta de classes – alterna de espaço e de relevância. Então, esta conversa aqui vai seguir dois caminhos… e confia: a gente vai chegar em algum lugar.

A primeira questão é que o ócio é um privilégio de algumas pessoas. O ócio é privilégio de quem tem tempo disponível para se entregar a ele. Quem tem tempo disponível para se entregar ao ócio em pleno 2025? Essa pergunta é complicada, porque, se você parar para pensar em quais pessoas realmente têm esse tempo, em maior ou menor proporção, a resposta vai parecer bem óbvia: quanto mais dinheiro você tem na conta, mais tempo você tem para o ócio. Quanto mais pessoas trabalham para você, mais tempo você tem para o ócio. O que nos leva a concluir que, da classe média para baixo, praticamente não há tempo disponível para isso.

E não, querido, não. O seu Renegade, a sua HR-V, não te tiram da classe média, tá bom? Você faz parte da classe média. O fato de você ter uma empregada doméstica, de pagar por esse serviço, não te coloca no rol dos privilegiados que têm muito tempo disponível para o ócio porque, querido ou querida, o tempo que essa pessoa está trabalhando na sua casa e que, teoricamente, você ganharia para o ócio, na prática, você usa para… adivinha? Trabalhar mais.

Ou, em alguns casos – são poucos, mas existem –, você usa esse tempo para dar uma atenção útil, uma atenção produtiva à sua família: aos filhos, por exemplo, participando do processo de educação, das brincadeiras, das diversões, estando realmente presente para os seus filhos e seus parceiros.

Por fim, voltemos. A discussão sobre o ócio tem, sim, uma dimensão clara da luta de classes, tem essa discussão sobre privilégios, especialmente nesse contexto em que estamos inseridos – e não sei se você já se deu conta, mas estamos caminhando para meados do século XXI.

Em 2025, no contexto urbano brasileiro, pouquíssimas pessoas têm real consciência da utilidade do ócio para o pleno funcionamento psicológico e cognitivo do ser humano. Existem muitas pessoas que sabem que precisam, mas não conseguem. E existe uma enorme parcela que está no meio disso tudo: pessoas que até possuem tempo disponível para o ócio, mas que entregaram esse tempo ao celular, às redes sociais, a essa obsessão de serem produtivos o tempo inteiro – aquele velho “trabalhe enquanto eles dormem”.

Essa discussão tem tantas facetas: a luta de classes, a consciência social, a consciência de si próprio, a compreensão da natureza do corpo humano, da mente humana, e de quais ferramentas e ingredientes são realmente necessários para que nossa mente funcione bem, para que tenha saúde, para que seja útil – seja a curto ou a longo prazo.

Esse tipo de conhecimento é acessível a pouquíssima gente, do ponto de vista racional, teórico, da informação bem trabalhada. Mas existe também a questão instintiva… e a gente simplesmente está abandonando essa discussão sobre o instinto na busca pelo ócio.

Talvez, para encaminhar para um fechamento, a questão seja: o ócio é necessário. Existe um consenso sobre isso. Precisamos descansar. E descansar não inclui o tempo que você passa assistindo séries. Descansar não inclui o tempo que você passa na frente do celular, nas redes sociais, tagarelando no WhatsApp, tagarelando na DM do Instagram… enfim.

Quando falamos de ócio, estamos falando de ócio de verdade. Estamos falando de deitar na rede e olhar para o teto. De deitar numa poltrona e simplesmente encarar o nada, o vazio à frente. Sentar na varanda de casa e apenas olhar para o horizonte. É o tempo do mais absoluto contemplar do existir. Apenas contemplar o fato de estar vivo. Contemplar a vida. Contemplar a existência. Nada mais. Nada mais útil. Nada mais produtivo. Não é para incluir ações de entretenimento. Não. É só o ócio.

Existe uma validade nisso. Existe uma qualidade nisso. Existe uma relevância nesse tempo. E nós, como sociedade, perdemos o brilho desse tempo. Abrimos mão de viver esse tempo de ócio. Como cultura, mesmo aqueles que têm condições de viver esse tempo não estão vivendo o verdadeiro ócio.

E, consequentemente, este é um dos fatores que adoecem a nossa sociedade. As pessoas não deixam a mente descansar. As pessoas só descansam quando dormem. Isso quando conseguem dormir. Isso quando têm um sono de qualidade. Isso quando o sono não é induzido quimicamente por remédios ou outros psicotrópicos.

Qual foi a última vez que você parou para fazer absolutamente nada? Com que frequência você se permite fazer nada? Você consegue responder a essa pergunta? Por que fazer nada é tão difícil?

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Apenas Beto

Assine a newsletter, gratuitamente, agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo