Existe um conceito literário chamado eulírico. Basicamente, é a identificação subjetiva do autor com o texto, uma música, um poema, uma história. Nele, há um ser, um personagem, que está vivendo aquela narrativa e a conta para você — como viveu aquela história ou como está vivendo aquilo.
Eu tenho um grande apreço por boas histórias e boas narrativas, seja qual for o estilo: música, poema, ficção, novela, ou até mesmo narrativas de cunho humorístico, como uma piada, um texto de stand-up, ou algo do tipo. Sou uma pessoa — e muitos já sabem disso — que não é muito afeita a romances, à ideologia romântica das relações, às entregas e paixões intempestivas, imprudentes.
Mas há uma graça que me satisfaz em músicas e, pontualmente, em poemas, prosas e poesias com teor romântico. Divirto-me com o sofrimento exagerado e exacerbado dessas construções narrativas. E tenho me permitido deliciar com essas narrativas no universo da música, me apossar e personificar o eu-lírico destas músicas, porque não as vivencio mais.
Já vivi. Já sofri. Já chorei. Já quis me “vingar” (tipo desfilar com um novo amor na frente de um antigo, que te “rejeitou”). Já quis dizer que superei quando, na verdade, não tinha superado. Quem nunca? 🤭
Toda essa dor de cotovelo, tão bem demonstrada nas narrativas de muitas músicas apaixonadas, românticas, desiludidas, encantadas, vislumbradas… Isso já não é a minha realidade. Hoje, me proponho viver relações com os pés no chão, construídas passo a passo, sem pressa, deslumbrando-me pontualmente com a experiência compartilhada. Passo a passo, sem posse, sem medo, sem controle: um amor compartilhado, artesanal, mais respeitoso às naturezas humanas.
Mas não dá para negar que é absurdamente divertido e delicioso abrir o player de música, deixar uma boa dor de cotovelo rolar e cantar a plenos pulmões histórias que não estou vivendo.
Cantar uma dor de cotovelo…
Porran! É bão demais!
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