2025-07-08 Pólen

Eu estava ouvindo um episódio do podcast da Manuela d’Ávila, chamado ElaPod, em que ela conversa com Marina Silva (a ministra) e Áurea Carolina (ex-deputada federal). Em determinado momento do delicioso diálogo entre as três, Manuela usa uma referência que me atingiu em cheio: não apenas pelo valor simbólico dentro da conversa, mas pelo valor alegórico desta pérola. A imagem que ela cita é a de uma flor que nasce, solitária, no meio de uma fresta do asfalto. Isso diz muito sobre: existência, resistência e o inesperado.

Ok! Usei um monte de termos, no final do trecho anterior, que foram esvaziados de seus sentidos pelo uso excessivo pela “turma do Instagram”, mas vamos conversar rapidamente sobre esses três termos. Juro que serei breve, mas ainda acredito que seja uma conversa necessária nesta quadra da história.

Comecemos pelo termo existência.

Definições:

  • O termo origina-se do latim exsistentia, de exsistere, que significa “aparecer, emergir, manifestar-se, estar visível”. A palavra é composta de ex- (“fora”) e sistere (“colocar-se, estar de pé”). Etimologicamente, existir é “colocar-se para fora”, tornar-se real e perceptível;
  • Na filosofia, especialmente sob a influência do existencialismo, “existência” é vista não apenas como o fato de estar vivo, mas como a condição humana de ter que construir o próprio sentido e propósito em um mundo sem significado predeterminado. É a vivência subjetiva, a liberdade e a responsabilidade de ser;
  • Também pode ser entendida em seu sentido mais literal: o fato de algo ser real, de ter vida ou presença no mundo. Refere-se à condição de tudo o que existe: de seres vivos a objetos inanimados. Exemplo: “A existência de água em outros planetas é um tema de pesquisa.”

Agora vamos para o termo resistência.

Definições:

  • A palavra vem do latim resistentia, derivada do verbo resistere, que significa “manter-se firme, opor-se, aguentar”. É formada pela união de re- (prefixo que indica repetição ou oposição) e sistere (“ficar de pé, posicionar-se”). A origem remete à ideia fundamental de não ceder a uma força;
  • No discurso social e político atual, “resistência” costuma descrever a luta e a oposição ativa de grupos minoritários ou oprimidos contra estruturas de poder, preconceitos e injustiças sistêmicas. Ser “resistência” é um ato de afirmação de identidade, de luta por direitos e por visibilidade;
  • Na física, é a propriedade de um material de se opor à passagem da corrente elétrica. Em sentido mais amplo, refere-se à capacidade de um corpo ou organismo de suportar fadiga, doenças ou dificuldades. Exemplo: “Ele tem ótima resistência física para correr maratonas.”

Vamos voltar à flor e ao asfalto, porque, depois desse tanto de palavras e esse tanto de coisa escrita (quem pegou a referência, pegou!), não vou repetir a dose com o termo inesperado. Primeiro, porque o texto vai ficar insuportável; segundo, porque é sobre ele que quero falar com mais calma; e terceiro, porque o texto é meu e eu quis assim.

A cena, se tomada literalmente, é a de uma flor nascendo e crescendo, solitária, em um terreno evidentemente inóspito, impróprio, inadequado para florescer. Partindo do pressuposto de que ninguém, em condições minimamente saudáveis, psicologicamente falando, plantaria algo para gerar uma flor no meio do asfalto, podemos deduzir que essa flor nasceu ali por um “acidente” do acaso biológico (nem sei se esse termo existe, mas você entendeu o que eu quis dizer).

Do nada, do nadão, pah, o acaso aleatório da natureza fez com que, naquela fresta do asfalto, uma planta, curiosamente uma angiosperma (se você não sabia, é o nome do filo das plantas que produzem flores… agora você sabe!), brotasse ali, teimosa. Ok, não sabemos se ela é literalmente teimosa, já que ninguém perguntou pra ela se foi obrigada a nascer ali ou se o vento a levou até lá (o que é bem mais provável).

Pera… foco! Flor no asfalto!!

Por que uma flor no asfalto, como alegoria, fala de existência, resistência e inesperado? Ora, jovem, porque há inúmeras situações, eventos, momentos, cenários, em que você foi, é ou talvez será essa flor no meio do asfalto (e, neste momento, um heterotop morreu no Ártico).

Eu gostaria que você, que já é um ser guerreiro por ter resistido até este ponto deste texto, fosse capaz de deduzir e compreender que uma flor nascer no meio do asfalto, além de obviamente inesperado, é uma puta duma ironia poética maravilhosa. A possibilidade de essa flor ir além do que ela é agora (ou seja, se tornar um pé de fruta, uma árvore frondosa ou qualquer variação plausível caso estivesse nascendo em solo fértil) é praticamente nula. Sendo bem sincero, é estatisticamente nula.

Apesar de TUDO isso, lá está ela.
Uma flor.
Do nada.
No meio do asfalto.
Existindo.
Resistindo.
Do na-da!

Ela existe, na nossa alegoria, porque estamos vendo. Porque, se ela está ali, há uma origem biológica para sua presença. Há algum material minimamente fértil para ela ter florescido. E, pasme!, ela potencialmente gerará outras vidas por meio da polinização. Eu acho isso muito foda!

Repito: de repente, cresceu ali uma flor (então ela existe, enquanto flor), no meio de uma fresta do asfalto (resistindo sabe-se lá como), num ambiente onde encontrar uma flor viva é completamente inesperado (ou você conhece alguma fazenda rentável soterrada por asfalto?).

Você tem noção de que essa flor, em ambiente inóspito, provavelmente irá reproduzir, culminando em nova vida fora dali? Fora do asfalto, seja a 5 metros ou 50 metros dali, ou sabe-se lá até onde o carai da abelha, borboleta ou beija-flor voará com esse pacotinho de gametas até tocar em algum gineceu ansioso por este pólen?

Fim da aula de biologia.

E se você for essa flor, que brotou em algum mar de asfalto, que você nem viu como, mas acabou se tornando você?

E se, hipoteticamente, num mar de parentes (tem gente que chama de família… eu me nego!), você for a única mente cognitivamente funcional que acredita que 1+1=2, logo, a Terra não é plana, vacinas salvam e aquilo em agosto de 2016 foi um golpe?

Já parou pra pensar que, apesar de inesperado, você existir e resistir nesse ambiente pode gerar vida mesmo que seus olhos não enxerguem isso acontecendo?

Eu preciso que você leia (ou escute) isso com calma e parcimônia: não estou dizendo que é para você se tornar essa “flor do asfalto” o tempo todo, em todo lugar, em todo contexto. Definitivamente, não recomendo isso pra ninguém. Não o tempo todo. Porém…

(ai, porém…)

Há casos diferentes, que marcam um breve tempo e fazem seu coração (olha ele aí!) entrar em ritmo de carnaval e, apesar dos desenganos vividos, a esperança surge como um bom samba, trazendo o sol na alvorada após madrugadas frias (no mar de asfalto).

Há dias, momentos, episódios em que você é a flor do asfalto e, antes que o desespero te alcance, torço para que você se lembre: talvez não esteja no seu campo de visão, mas existe a possibilidade real de que sua existência ali, de que sua resistência viva, gere nova vida em algum lugar, uma vida de resistência, graças ao seu pólen (verbalização de ideias coerentes, razoáveis e saudáveis), colhido por alguma abelha, mariposa ou beija-flor que, sem querer, levou isso adiante depois de ter cruzado com você.

Na dúvida, surpreenda: continue resistindo e insistindo em existir.

Aparentemente, vale a pena.

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