Aquele dia, eu passei a tarde falando de você, sabe? Me dei conta de que, enquanto eu falava de você, meus olhos brilhavam, um sorriso se abria no meu rosto. Eu tinha um monte de memórias boas, mas fui falando, falando e também percebi o quanto eu parecia te incomodar: meu jeito, minha forma de ser, as coisas que eu não era, as coisas que eu não fazia, aquilo que eu simplesmente não era, tudo aquilo que eu não fui. Foi falando de você, falando do quanto eu me orgulhava de você, do quanto eu te achava fantástica, inteligente, linda, uma companhia deliciosa, o quanto a sua presença me fazia bem, que eu me dei conta.

Me dei conta de que a minha presença, minha permanência, não te fazia bem. Ficou claro que, sendo quem eu sou, eu não fazia bem pra você, não atendia aquilo que você queria de um parceiro. E como você concentrava toda a sua demanda em mim, aquilo começou a me fazer mal. Não era você que me fazia mal, mas o fato de eu ter sido transformado na sua única fonte de afeto, na sua principal atenção, de que toda a sua estrutura girava em torno da minha presença, de eu estar presente, de me fazer presente. Eu era a sua fonte de afeto, eu fui transformado na sua única e principal companhia. E, quando eu não fazia parte do seu mundo, o seu mundo deixava de existir. Isso me fazia muito mal. E me fazia mal estar mal ao lado de alguém tão fantástico. Me fazia mal estar mal ao lado de alguém que merecia mais, algo que eu não ia te dar, porque não era eu, não era quem eu era.

Eu te amo e, por te amar, eu queria o seu melhor. Porque, agora, te amar era deixar essa porta aberta pra alguém que pudesse te dar o que eu não te dava, que pudesse ser o que eu não era, alguém que pudesse te atender como eu, sendo quem sou, não te atendia.

Foi por isso que decidi partir. Foi por te amar que fui embora. Fui embora com o gosto de memórias boas, fui embora com o sabor dos seus beijos na boca, dos bons momentos que vivi ao seu lado, das experiências que compartilhamos. Mas fui embora porque ficar doía, porque ficar era manter fechada uma porta para coisas que, claramente, precisam da porta aberta.

Abri a porta e parti.

Por te amar, fui embora…

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