Luz e sombra, alto e baixo, claro e escuto, longe e perto, ligado e desligado, bom e mau, Coiote e Papa-Léguas, Tom e Jerry, Hulk e Bruce Banner, Galo e dia de paz.

A humanidade, aparentemente, possui uma enorme predileção por enxergar, inferir e/ou produzir dicotomias. Parece uma fixação, um verdadeiro fetiche, uma tara.

Conceitualmente, o termo “dicotomia” possui bem pouca variação semântica entre a que a cultura brasileira aponta e o que outras culturas (até onde tive acesso) apontam. Basicamente, tudo que é/foi dividido em duas partes e que se apresentam exclusivas e/ou contraditórias após divididas.

Dentre algumas das dicotomias presentes no senso comum do universo sócio-filosófico existe a conversa sobre  “o Eu e o Outro”. Vários pensadores, do século passado ou contemporâneos, abraçam a perspectiva de que existe um EU e um OUTRO e, na maioria das vezes, eles divergem “apenas” sobre qual constrói quem, quem interfere em qual, quanto interferem entre si, como interferem ou interagem.

Talvez por uma limitação minha (esta possibilidade é a mais provável), eu não tenha tido acesso à outras pessoas debatendo sob outra perspectiva: não existe EU e OUTRO, ou EU + OUTRO, não são DUAS coisas. São uma só. (ou “é uma só?”… Povo da Letras, help!)

E, de verdade, eu nem estou apelando para esoterismos e espiritualizações baseadas em dados do ITDK (Instituto Tirei do Kuh), tão amplamente divulgadas e abraçadas neste mundo que ecoa pseudociência/charlatanismo barato (tipo “crença limitante”, vomitada pelos pseudopsicólogos de instagram/tiktok) com mais reverberação que a melhor caixa acústica natural da mais ampla caverna de rocha lisa do universo.

Enfim, voltemos… Foco!! (foco, comigo, que piada ótima, rá rá rá!)
Senta que lá vem história!! (toca o trompete!) [aquilo é um trompete?!?]

Preso a canções, entregue a paixões

Era manhã de segunda-feira. estava pesquisando sobre a possibilidade da variação semântica de DICOTOMIA. Mas por quê, do nada, eu estava pesquisando sobre isso? Por que antes disso eu estava lendo um livro sobre o “desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vigotski” (Vivi, pros íntimos), me aquecendo para o recomeço do período letivo.

Que nunca tiveram fim

Por que eu estava lendo este livro especificamente? Porque eu estava a caminho da “Casa Grande” (onde eu entrego vida e recebo dinheiro por isso), ouvindo um podcast sobre colonialismo, colonialidade, epistemologia e, pah!, um dos dois foi citado (qual dos dois, Pipi ou Vivi, não lembro).

Vou me encontrar longe do meu lugar

Resumindo: colonialidade, etimologia, aprendizagem, dicotomia, Eu e Outro, Lévinas.

Pera… Lévinas?

Eu, caçador de mim…

Pois é… Acontece que, no meio da pesquisa sobre como Lévinas, um filósofo franco-lituano (1906-1995… durou, né?!), encarava esta questão (do Eu e o Outro), me deparo com uma frase simples: “o Outro me liberta da prisão de mim mesmo”.

Então, minha mente, esta terra confusa, perturbada e disforme, do nada dá o “play”, quase como “música de fundo”, que quase todo mundo conheceu na voz de Milton Nascimento, mas a versão “cravada” na minha mente é a do 14 Bis, na voz do Sérgio Magrão (que é, inclusive, o autor da música, em parceria com Luiz Carlos Sá).

Por quê? Não sei!! Apenas é.

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim?

Mas, enfim, retomemos… Foco!

Eu. Outro. Dicotomia…

Eu não queria ser o mensageiro desta informação para a maioria das pessoas que lerão este texto (sim, vocês três!): essa dicotomia entre Eu e o Outro, corpo e mente, homens e animais, é uma construção cultural (CONSTRUÇÃO!!) predominantemente EUROPÉIA (e, por consequência, estadunidense).

Dica: origem na cultura grega binarista.

Em boa parte do mundo não-europeu, mesmo quando há uma separação entre físico e metafísico/espiritual/esotérico, a interação, interferência e relação entre as duas coisas é inevitável, constante e necessária. Não existe um sem o outro, de tal forma, que ambos são a mesma coisa, como faces de uma mesma moeda.

Bebendo desta fonte é que eu, lendo esta conversa sobre Eu x Outro desta penca de sócio-filósofos europeus (tudo omi!) dos séculos 19 e 20 (evito XIX e XX porque tem gente que nunca vai entender çaporra), entendo o que eles estão falando, mas, a cada passo destas minhas leituras, eu me pego pensando: que mania que cês têm de separar coisas que são uma só.

Pera… uma só?!??

Sim, uma só! Separar o “meu” Eu do seu “Eu” (que, no caso, seria o “Outro” [ok, são coisas diferentes, mas vou simplificar pra ficar mais fácil de entender]) não é possível.

“Ainn, mas eu sou eu e você é você!”
Será mesmo?

Eu sei qual força nutre tanto este pensamento (cof, cof, capitalismo, cof cof), que precisa SEPARAR e INDIVIDUALIZAR as pessoas, carimbar e classificar pessoas, colocar pessoas em potes separados, como se isso fosse possível.

A questão é que absolutamente TUDO neste planeta (que demos o nome de Terra, apesar de ser 70% coberto por água), interage, influencia e se relaciona. Não há como evitar isso. É uma característica intrínseca ao sistema ecológico do planeta.

É assim TUDO no planeta funciona.
Sabe o que está inserido neste sistema? A humanidade (e você, que é 0,00000000001% dela) e absolutamente todas (todas MESMO) as interfaces dela com o “resto do planeta” (que, sejamos sinceros, caso fosse uma força com intenções, deve estar torcendo muito por nossa extinção).

Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Me caçar para me entender é tão essencial quanto entender o Outro, porque o Outro sou Eu. O Outro é parte de mim, eu sou parte do Outro. Não há como separar porque só é possível definir um quando existe o outro. E, se são essencialmente dependentes, inseparáveis, é porque são um só.

Repito: não há Eu sem o Outro, não há o Outro sem o Eu.

Nem eu, nem você, vamos nos compreender, jamais, se o processo de autocompreensão não for acompanhado do processo de compreensão dos outro, dos outros, das estruturas, dos contextos, do ecossistema (com ou sem o “eco”).

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Obs: compreender não é aceitar. Serve pro Outro, serve pro Eu.

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