Quem tem o hábito de beber o café que prepara tende a entender melhor a analogia que farei. Normalmente, quem prepara o próprio café tem um jeito de fazê-lo quase próprio: seja na forma, seja na quantidade de pó, seja na temperatura da água, seja se faz quantidade maior ou menor. É quase uma ciência que permite que cada um tenha sua assinatura.
(ou seja, não é ciência, é arte… enfim, seguindo…)
Quem tem este hábito costuma reparar na diferença entre o “seu” café e o café “duzôto”. Mais ou menos saboroso para seu gosto, mais ou menos intenso, mais ou menos quente, etc., etc., etc… Fato é que existe o MEU café e existe o café que não é o meu café. São bebidas estranhas entre si.
Hoje eu acordei e meu café não era o meu café. Meu café é meu corpo, meu café é minha mente. Meu café é o dia que terei pela frente ao abrir os olhos, quando o despertador (maldito seja) toca.
Hoje eu não senti o meu sabor, a minha temperatura, a minha textura. O café que bebi, quando acordei, não tinha sabor, nem cafeína, nem temperatura alguma. A sensação era que eu bebia um líquido que, ao entrar pela minha boca, sumia. Eu não existia. Eu não estava em mim.
É difícil explicar esta experiência; talvez alguém seja muito melhor que eu nisto. Sim, certamente alguém é bem melhor que eu nisto, mas você está aqui, lendo o que eu escrevi, então é o que temos por hoje.
Eu, tentando explicar algo que é estranho. De novo.
Acordar, me tocar, levantar, respirar e em nenhum momento me se sentir presente. Eu dei banho em um corpo que era meu, mas não era eu. Eu bebi água e hidratei um corpo que era meu, mas não era eu. E, sim, houve um café coado, que eu fiz como sempre faço, nas medidas e na forma que sempre faço, mas quando bebi… não, não era o meu café.
Me olhei no espelho ao me aprontar para ir trabalhar. Era meu corpo, mas não era eu. Era minha cabeça sem cabelo, minha barba qualquer-coisa, meus óculos, meus olhos, minha boca, minha barriga de cadela prenha.
Era meu corpo, mas não era eu.
Estou caminhando (quase rastejando) para completar 42 anos em breve. Alguns dirão que isso é coisa da “crise da meia-idade”, o que eu acho muito estranho do ponto de vista lógico. Se aos 40 tenho “crise da meia-idade”, LOGO, idade = 80. Pera, divaguei… voltando…
A questão é que me sinto um octogenário desde a adolescência, mas de algum tempo pra cá isso se agravou ainda mais. Meu corpo decidiu concordar com minha mente e agora ele também decidiu ser um octogenário.
Não sei se terei como resolver isso. Eu nem sei bem se isso é realmente um problema. Sei que estou morando em um corpo que é meu, mas não sou eu.
Por causa disso, ando me perguntando, sem encontrar uma resposta robusta ainda: quando nada mais me é familiar, quando tudo me parece estranho, o que resta? Onde sou? Quem estou?
Está estranho, tudo isso está ou é muito estranho.