Não sei como vocês conseguem. Não sei como, mas sei que, para mim, é muito difícil. Sei que o Flausino disse que seria fácil, extremamente fácil, mas, para mim, cantar junto é difícil demais.
Não sei, não sei como vocês conseguem. Abro os olhos pela manhã e, todos os dias, lembro dos meus erros, dos mais tolos aos mais bizarros. Lembro de cada “não” que deveria ter sido “sim” e vice-versa. Lembro porque sinto: meu dente quebrado, porque fui agredido dentro de casa, e agora a pessoa tortura minha família com orgulho e satisfação.
Sinceramente, não sei como vocês conseguem. Olho pela janela e lá estão, no canteiro central da avenida, um casal em situação de rua, pessoas cuja história eu não conheço, mas duvido muito que algum dia esse tenha sido o sonho da vida deles.
Sinceramente, como conseguem? Olhar para uma criança que é sua responsabilidade, pela qual você não faz nada, e pensar: “Está aí a garantia da minha renda complementar”, e ainda chamá-la de filho?
Sinceramente, como… Como responder “tudo bem” cada vez que chega uma notificação no celular perguntando se está tudo bem? Não, não está tudo bem. Aliás, bem pouca coisa está boa. Quase nada, na verdade.
Sinceramente… não consigo. Não consigo cantar junto, não é extremamente fácil. Sei que você disse, Rogério, que um dia feliz às vezes é muito raro. Eu devo ter dado muita “sorte”, porque um dia feliz, um DIA FELIZ, eu nem lembro o que seja. Me pego pensando: este dia já aconteceu?
Sim, aconteceu.
Mas eu estava sonhando.
O problema é que a vida acontece quando estou acordado.