Fantasmas conversam comigo todos os dias, o dia inteiro. Algumas vezes os ignoro, em outras os respondo, mas nunca é uma conversa. Eles apenas chegam, dizem o que têm para dizer e se vão. Quando falam, falam sobre tudo e nada; preciso ficar deduzindo sobre o que estão falando. Odeio isso. Odeio comunicação vaga. É como andar sobre uma ardósia ensaboada. Não há como dar certo isso. Mas, mesmo assim, eles falam. Na maioria das vezes eu só ouço e fico confabulando sobre o que falam.
São estas pílulas de nada com coisa alguma, das quais, com muito trabalho, consigo vislumbrar algum sentido. Algumas vezes acontecem as epifanias e as falas, que pareciam inócuas, apresentam ideias luminosas, quase pérolas de sabedoria. Algumas vezes são apenas tapas na cara, lembretes niilistas. Muitas vezes me pego, quando eles passam por mim vomitando suas frases e falas aleatórias, parado, apenas observando a vida ao meu redor, deslumbrado com o sorriso de uma moça que parece estar lembrando de algo muito interessante, ou observando o caimento de uma camiseta de malha no dorso de um rapaz atarracado, ou vendo uma criança encantada com algo completamente banal para um adulto.
Mas é aquele sorriso que me cativa… Aquele caminhar… O movimento discreto no canto da boca quando ouve algo que a cativa… Aquele caminhar que não é apenas o andar, é um dançar adiante, sem pendular, sem giro… É um caminhar dançante… Ela, que flutua como uma pena, é poesia materializada… E eu, a prosa sem ritmo nem rima, apenas observo.
Eu, que sou esta sequência perene e crônica de erros e equívocos, esquisito, uma aberração. Esta bizarrice que persiste e insiste em existir. Eu, que já entendi que o importante é que eu seja eu. Eu, que sei que não há EU sem o OUTRO, e que não há um OUTRO sem que eu entenda o que é EU. Eu que não sou, eu que apenas estou.
Eu, aberração, esquisito, bizarro.
Me, creep, weirdo, bizarre.
“What the hell am I doing here?
I don’t belong here.”
Às vezes a Pitty (a baiana) me faz chorar demais, mais que Cartola, mais que Los Hermanos, mais que Russo (o Renato), mais que “Sacrifice” na voz de Sinéad O’Connor. Por que, Pitty, por que você insiste em me lembrar que eu não sou um robô? Por que eu preciso sentir, pensar, crescer, aprender? Seria tão mais simples eu só ser aquele robozinho do Admirável Chip Novo. Aquele esquisitinho… Bizarro… Mas ela, a Pitty, não está satisfeita em me lembrar que eu não sou um robô. A Pitty gira a faca (diferente de uns Adélios por aí… enfim…).
Ela, a Pitty, vem, pausadamente, sem pressa…
“Tira a máscara que cobre o seu rosto, se mostre e eu descubro se eu gosto do seu verdadeiro jeito de ser”.
Então eu tiro (a máscara). Então eu choro. Choro a vergonha de ser quem sou, choro o perdão de ser quem sou. Celebro e lamento. Puno e perdoo novamente. E o saudoso Chester Bennington (do Linkin Park) berra, a plenos pulmões, me abraçando, me acolhendo: “for what I’ve done / I start again / and whatever pain may come / today this ends”.
Agora posso dormir.
As vozes ainda estão caladas: apenas fantasmas.
Amanhã eu começo novamente.
Acho.