(Sobre a necessidade de lembrar — antes que o tempo apague)
Há coisas que a gente passa tempo demais empurrando com a barriga. Na minha, neste momento, há uma centena delas, mas vou resumir em uma: organizar a vida. Não é uma urgência desesperada — embora às vezes pareça. Ok, é urgente, mas, sei lá, talvez seja apenas uma necessidade de colocar ordem nas coisas que me formam, mesmo que eu nem sempre perceba: as leituras, os registros, as memórias.
Percebi que preciso aprender a documentar melhor a minha vida. Não no sentido burocrático, mas no íntimo: lembrar o que passou por mim e quero manter a marca. Por exemplo: fazer uma lista dos livros que li. Em 2025, só neste segundo semestre, li mais do que em qualquer outro período da minha vida (proporcionalmente). Talvez só tenha lido tanto lá por 2006 ou 2007, quando eu passava seis horas por dia no transporte público — três pra ir, três pra voltar. Lia no ônibus, no metrô, em pé, sentado, cansado. E lia empolgadão.
A vida passou, e cá estou, quase vinte anos depois [sabe-se lá como!!!]. Agora não passo tanto tempo diário em translado, mas mesmo assim tenho lido muito. Aí, do nada, do nadão, percebi que não lembro de tudo o que li… ESSE ANO!!! Se eu parar com calma, mas… tipo… com MUITA calma mesmo, talvez consiga listar boa parte. Mas… e daqui a um ano? Ishquiece!!!
Foi aí que me perguntei: uai Betto (é, eu falo assim comigo mesmo), vale a pena apenas listar os livros? Título e data? Ou será que devo fazer uma espécie de fichamento — título, autor, data, o que me marcou? [e isso me tomou uns bons dez minutos de debate comigo mesmo… aí dormi…]
Já vi cadernos prontos pra isso, mas nunca dei importância. Até o dia em que alguém me perguntou se eu já tinha lido certo livro. Fiquei em dúvida. A pessoa começou a descrever a história e eu soltei: “Nossa, eu li! E pior ainda: eu já li e gostei!”. Mas o nome… nada. Sumiu da memória. Quando li? Não fazia a mais ínfima ideia!!
A provável utilidade do registro se revelou ali. Revisitar um fichamento é como folhear a própria cabeça: a lembrança volta, a sensação (meio que) volta, e às vezes dá até vontade de reler. Vai que…!
Outra coisa relacionada que preciso resolver é o meu arquivo de livros. Tenho dois armários cheios (mas tenho livro pra encher mais um, LOGO, tenho livros empilhados pela casa inteira!). Provavelmente, sendo muito otimista, li uns 30% deles (talvez 1%? Talvez eu seja um acumulador de livro? Será?). O resto (70% a 99%, pela margem de erro) está lá, esperando o famigerado “um dia eu leio” que (para surpresa total de ZERO pessoas) nunca chega.
A consciência pesa (ok, só um pouquinhozinho, mas pesa). Está na hora de decidir o que fica e o que vai. O que for ficar, quero registrar. O que for embora, que vá viver e ser história nas mãos de um outro alguém. Há livros que nunca mais vou reler — e tudo bem. Mas há outros que sim, quero revisitar.
Mas talvez, apenas taaaalvez… Talvezinho…
Talvez essa necessidade de organizar minha biblioteca pessoal venha de outra questão: quantos momentos da vida deixei passar sem registrar nada? Nadinha de nada, nenhuma foto, nenhuma anotação num diário, nenhum sinal de que aquilo aconteceu, tipo, nada-nada-nada-nada (e se a música tocou na sua cabeça, bem-vindo/a às minhas sinapses! [eu não estou fazendo nada]).
(foco… voltando!!)
Onde eu tava mesmo? Ah… a falta absoluta de qualquer registro deste “eventos canônicos” da minha história. Daí o tempo vem e… puf… apaga! E quando a memória falha, oh meu querido, é como se parte da nossa formação evaporasse junto.
(é metáfora, ok?)
Sim, eu sei: a mente, os valores, a personalidade são fluidos, mutáveis. É justamente por isso que certos fragmentos merecem ser guardados [ênfase nisso: fragmentos, tipo um monte de post-it da vida… não essa doença contemporânea de tentar registrar tudo).
Às vezes, bem às vezes (tá!?) precisamos lembrar daquilo que nos sustenta. Em momentos de confusão, de queda livre, é bom ter como se resgatar. É bom lembrar das coisas boas que nos deram combustível para chegar até aqui.
Os registros são isso: são massas de modelar, no formato de memórias, que a gente pode dar uma olhada, pra tentar manter aqui dentro o que poderia se perder.
Livros esquecidos, lembranças que esmaecem… alguns merecem ficar, outros não.
É tipo… a vida!
Betto
Nov/2025
Poltrona da sala
[E, talvez, o que a gente chama de “organizar a vida” seja, no fundo, só uma tentativa de continuar lembrando quem somos. Tentar impedir que o tempo nos reescreva sem aviso prévio e sem backup nenhum].
