2025-07-18 Guilty Pleasure, com ou sem guilty

Comecemos com um breve glossário contextual. Guilty, em inglês, culpa ou culpado. Pleasure, prazer, diversão. Juntos? Aí complica, mas, resumidamente: “prazer culpado”. Vamos conversar mais sobre isso.

Qualquer pessoa que não esteve fora do planeta Terra nos últimos mil anos viveu ou teve seu guilty pleasure. Partamos do conceito de que o guilty pleasure demanda que a pessoa que possui um gosto, um hobby, um ídolo ou qualquer variante similar sinta alguma vergonha disso. Ou seja, a pessoa precisa se sentir, ou se perceber, socialmente menor por seu precioso guilty pleasure.

Logo, já é interessante pensar que isso vem de fora pra dentro.

“Ah, mas às vezes a pessoa sente vergonha, mas ninguém tá nem aí!!”

Sua inocência me toca, jovem padawan! Pra alguém se sentir menor, ou constrangido, por uma característica ou gosto pessoal, é porque existe, previamente, um padrão — um parâmetro social, moral, cultural — já estabelecido. E ele está, de alguma forma, fora da régua, girando fora do eixo, olhando pro lado errado.

Chega a ser lógico, né? Não há constrangimento quando se segue a cartilha social hegemônica vigente. Quem vai te julgar como menor ou pior se você gosta, fala ou faz o que se espera?

Enfim, voltando…

Como guilty pleasure é um conceito (estabelecido) sobre algo mutável (gosto pessoal muda, cultura muda), então esta base precisa ficar muito bem estabelecida aqui. O que ontem era motivo de constrangimento para muitos (como gostar de dorama, k-pop, novela turca), hoje é um mercado enorme, está “na moda” e é plenamente aceitável.

O pleasure não tem mais guilty. Era motivo pra manter quase um sigilo, fazer às escondidas ou, no mínimo, evitar falar disso (porque, ora bolas, quase ninguém entendia também). Nerds e otakus das décadas de 90 e início dos anos 2000 sabem bem o que é isso.

Há, contudo, confusões comuns sobre o termo (ou expressão) que classificam erroneamente algumas coisas como guilty pleasure. Um exemplo são os “eu era fã antes de ser modinha”, comumente chamados de hipster (de qualquer coisa). Observe um detalhe curioso sobre isso: às vezes o objeto de admiração (ou o hobby) é o mesmo, mas o hipster se orgulha de ter bebido dessa água antes dela ser conhecida do grande público (“cheguei aqui quando isso tudo era mato”). Indo pelo viés quase oposto, a pessoa que tem esse mesmo objeto de admiração se vê aliviada (provavelmente feliz) quando (repito) seu guilty pleasure passa a não ter mais o guilty no seu pleasure.

Acho que já entendemos o conceito, e exemplos provavelmente pipocam na sua mente neste momento.

Sigamos.

Primeiro, preciso deixar uma coisa clara: a não ser que seu guilty pleasure vá contra as leis vigentes brasileiras — ou do seu país — (tipo praticar racismo, misoginia e capacitismo num mesmo dia, num mesmo palco, para milhões de pessoas), não há absolutamente NENHUM motivo pra você se enxergar como menor ou qualquer coisa do tipo. Que se phoda quem não gosta do que você gosta. O mundo é vasto — o outro que cuide da própria vida e vá cuidar dos próprios prazeres.

Segundo: muitos dos chamados guilty pleasures não possuem motivo real pra carregar o guilty na classificação, senão o fato de que algum grupo social do qual você faz parte — ou com o qual tem contato — te cause esse constrangimento ou cobrança.

Terceiro: gostos mudam e, talvez, apenas talvez, hoje você tenha algum guilty pleasure que traz uma herança afetiva, ou passou a curtir esse objeto de um jeito bem diferente de antigamente. O objeto é o mesmo, mas mudou a forma de vivê-lo.

Então chego ao meu guilty pleasure. Eu gosto — bastante — de acompanhar todo o universo da Fórmula 1. Sim, aqueles carrinhos de mil cavalos de potência girando em círculos por pistas e autódromos ao redor do mundo, pra descobrir qual o pacote carro/equipe/piloto vence cada corrida e, por fim, o campeonato.

“Uai, mas onde entra o guilty?”

Lembra que eu falei lá em cima que o guilty do seu pleasure prescinde de uma validação (ou não) social/cultural? Então, tem outro detalhezinho que preciso te contar: às vezes, seu guilty pleasure confronta TODO o seu pacote pessoal de valores, sua moral, seu posicionamento político (lembrando sempre: TUDO é político, a menor parte é eleitoral).

Acontece que a Fórmula 1 é um esporte que gira bilhões de dinheiros (pode escolher qualquer um de real pra cima), feito por empresas bilionárias, com proprietários bilionários, com equipes geridas por profissionais milionários, com carros pilotados por pilotos (ora, ora, xeroki rolmis!) no mínimo ricos (e alguns deles, milionários). E que (diferente do que o senso comum acredita) possui e produz, a cada corrida, pelo menos umas 20 histórias a serem exploradas, contadas, narradas e acompanhadas. Fofocas deliciosas e, também, as disputas na pista asfaltada com carros correndo nela.

“Ah… legal… mas cadê o carai do guilty?”

Está no detalhe de que, no meu discurso, no meu posicionamento político, no meu parâmetro moral, eu sou completamente avesso à existência de bilionários. Sou contra o investimento de bilhões de dinheiros concentrados em qualquer modalidade esportiva, sou contra qualquer espécie de idolatria personalista (qualquer uma mesmo!). E eu poderia listar mais umas dez coisas que existem na Fórmula 1 (ou na FIFA ou no COI) que contradizem tudo que eu penso e julgo ser melhor pro mundo, mas…!

Lá estou eu, toda semana, acompanhando todas as notícias possíveis, todos os treinos, todas as classificações, todas as corridas, todas as séries, documentários, filmes, fofocas… devorando tudo que está acessível e seja relevante pra eu conversar com… NINGUÉM (!!!) sobre Fórmula 1.

O meu guilty pleasure é bizarro, porque me toma um puta tempo de vida, mas não agrega em praticamente nenhuma conversa que ocupe nem cinco minutos da minha semana regular e, pra brindar isso, ainda carrega uma gota de culpa por todo esse circo que orbita o esporte.

Por fim, é isso. Eu tenho, você tem, e provavelmente todas as pessoas ao seu redor possuem o seu guilty pleasure. Às vezes, as pessoas ao redor não entendem, nem julgam negativo. Às vezes, elas entendem e não julgam nada. Às vezes, elas nem entendem, nem te constrangem, mas você mesmo se auto-constrange-a-si-mesmo por suas contradições.

Enfim… humanos sendo humanos.

Todo dia descobrimos e (por aqui) busco refletir sobre alguma incoerência nossa. No fim das contas, ao fim do expediente, não importa o que aconteça: ainda somos apenas humanos.

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