(ou: como a gente adoece tentando caber num mundo que nem sabe o que é saúde)
Conceitualmente, ninguém enxerga a realidade crua. A gente vê o que consegue ver, sempre filtrado pelos nossos afetos, pelas nossas ideias, pelas nossas experiências, nossa “moral”.
É com base nesses filtros que tomamos decisões. Somos movidos por convicções que não são lá tão nossas assim. Elas foram moldadas, empurradas, cultivadas por fora antes de se tornarem parte de dentro.
Nosso contato com a realidade é parcial, limitado, enviesado. Mas seguimos agindo como se fosse o contrário, com convicção. Com “certezas”. Com julgamentos prontos.
E aí me vem uma questão que fascina: ou ninguém é doente pelo que pensa (e faz) ou somos todos (doentes).
Porque, na prática, o que a gente chama de transtorno muitas vezes é só… diferença. Desvio de um “normal” que ninguém nunca viu, mas que todo mundo insiste em perseguir.
Pensou fora da curva? Tem diagnóstico.
Sofreu com o absurdo do mundo? Rótulo.
Sentiu demais? CID. (e tem CID pra todo mundo!)
Não estou aqui negando doenças reais. Depressão grave, bipolaridade, quadros autistas que de fato impactam a vida. Claro que existem, claro que precisam de cuidado.
Mas e o resto? E o incômodo de viver num mundo insano?
E as flutuações de humor que só mostram que você é um ser humano e não uma máquina?
E a melancolia que aparece quando a alma pede pausa?
Vivemos num tempo onde tudo tem que ser eficiente. Tudo é pra ontem. Tudo é métrica.
E se você falha, desvia, desencaixa?
A sociedade te soca um laudo e te entope de drogas/fármacos (às vezes chamado de remédio).
É o neoliberalismo na cabeça, com a farmácia no bolso.
E o modelo? Vem dessa “deliciosa” cultura tipicamente estadunidense, mas a gente engole com gosto.
Tudo em nome da tal funcionalidade!
Mas funcionar não é o mesmo que viver bem. (Afinal de contas… funciona PRA QUEM?!)
Funcionar é só seguir girando numa engrenagem que nem sempre faz sentido.
Funcionar é caber, nem que isso custe sua alma.
No fundo, é disso que se trata: moldar o sujeito pra caber.
Pra performar.
Pra não incomodar!
(pera… pausa… respire…)
Há gente adoecendo, mas não por falha interna, mas por excesso de lucidez.
Por quê? Porque perceber demais esse mundo, às vezes, dói. E essa dor não cabe no sistema. Não encaixa a peça.
Então… ou anestesia… ou implode?
É aí que mora o perigo. Porque este desconforto, às vezes, é justamente um sinal de sanidade.
Sentir-se deslocado pode ser exatamente o que mantém sua humanidade viva.
Mas o mercado não gosta disso. (não mesmo!) O sistema não lida bem com quem escapa.
Gente que sente demais é um problema. Gente que questiona, então… perigoooso demais.
Aí oferecem a pílula. Ou o laudo. Ou a promessa de conserto. Ou uma solução esotérica (leia-se: religião)
Só que nem tudo que está fora do padrão está errado. Nem tudo que dói precisa ser silenciado.
Não estou romantizando sofrimento. Pelo contrário, estou denunciando a romantização da normatividade.
Essa sim é perigosa: disfarçada de cuidado, mas cheia de controle.
Ninguém vê a realidade crua, mas tem gente fingindo que vê.
E esse fingimento, institucionalizado, medicado e vendido em prestações, esse sim, me adoece.
…
Agora, me dê licença. Vou ali tomar meu remedinho: 300ml de água e 10 minutos de sol na cara.
Fazer isso antes que a minha realidade me tire o fôlego e acabe se tornando um boletim de ocorrência.

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