2025-07-15 Guia

É curioso pensar como ainda há pessoas (e são muitas) que não compreendem que a escola, a instituição escolar, é a principal porta de entrada do ser humano no universo do pensamento crítico, da interpretação de texto, do raciocínio lógico. Definitivamente, não é a única, mas certamente a principal.

Alguns dirão, com bastante razão, que a construção do ser humano se faz tanto dentro quanto fora da escola. Está coberto de razão quem afirma isso. Porém, não sejamos levianos ao ignorar o fato de que, em considerável parcela dos lares, o incentivo ao pensamento crítico, ao raciocínio lógico e à interpretação de texto não são prioridades. Principalmente se considerarmos que, muitas vezes, isso não ocorre por dolo, mas por pura manutenção cultural. Quem está disposto a ter uma criança e/ou adolescente questionando o status quo dentro de casa?

“Cê tá achando que é quem, pra pensar diferente de mim?”, é o que vemos na prática, na grande maioria dos lares.

Então nos lembramos de uma questão que julgávamos, erroneamente, ser parte apenas de um passado de séculos atrás, em que o criacionismo era matéria de sala de aula. Sim, caso você esteja lendo isso em 2500 e as religiões agora ocupem apenas o espaço que deveriam ocupar (suas igrejas, sinagogas, templos, terreiros ou espaços similares), saiba que, em 2025, existem pessoas, supostamente saudáveis, que acreditam piamente que ensinar criacionismo (tradução: que uma entidade chamada “Deus” criou o Universo inteiro, além dos humanos à sua imagem e semelhança, mas, não satisfeito, exige deles adoração e obediência, senão serão lançados ao sofrimento em vida e após a vida) seja algo plausível de ser feito dentro do SNE (Sistema Nacional de Educação).

Pois é, há pessoas que realmente acreditam que é papel de um professor, dentro de uma sala de aula, ensinar a seres humanos (cidadãos em formação) que tudo que a humanidade descobriu através do pensamento crítico, da lógica e da interpretação das leis naturais do universo (até onde teve contato e conseguiu mensurar) é balela. Que, na verdade, o mundo foi criado por um ser onipotente (existem incontáveis religiões que usam a mesma premissa, mudando apenas a historinha ao redor desta entidade, ou dessas entidades cósmicas esotéricas) e que cabe aos seres humanos simplesmente acreditar nisso.

Evidência? Nenhuma, claro.

Bom, vou tentar organizar este fluxo de pensamentos aparentemente desconexo que acabei de escrever e, provavelmente, você acabou de ler.

Partamos de alguns pontos:

  • é esperado que a escola seja o acesso mais óbvio para que uma criança desenvolva a capacidade de interpretar textos e discursos, desenvolva raciocínio lógico e se torne um ser com capacidade de pensar criticamente sobre sua realidade.
  • é plausível pensar que apenas uma minoria de lares produz um ambiente propício para que esse desenvolvimento seja estimulado e potencializado em casa.
  • não é difícil deduzir que a manutenção do status quo depende de que humanos em formação não obtenham ou desenvolvam tais capacidades.

Percebem que, ao unir essas três afirmações (praticamente inegáveis à luz da realidade), é totalmente compreensível que a destruição, a sabotagem ou qualquer coisa similar ao sistema público de ensino seja um projeto interessante para o benefício de uns poucos e a manutenção da submissão e alienação de muitos??

Qual a forma mais fácil de enganar alguém sobre um assunto?

Basta que ela não saiba nada sobre o assunto ou que ache que sabe (quando, na verdade, só sabe o que eu quero que ela saiba).

Pronto, facinho demais de enganar, de ludibriar, de cooptar seu apoio e, quiçá, sua admiração.

Então, considerando que você não faz parte do 0,1% mais rico do país (se você não tem renda mensal acima de R$ 150.000), você faz parte daqueles que, inevitavelmente, dependem de um Estado que seja progressista e atuante na educação, no transporte, na economia, no emprego e em tantas outras áreas, pelo simples fato de que, sem uma ação contundente do Estado nessas frentes, toda a construção social ficará à mercê dos interesses do 0,1%, aqueles que possuem recursos e uma rede de influência suficiente para que a música d’As Meninas nunca pare de tocar:

“…é que o de cima sobe e o de baixo desce!”

E tudo isso começa por um ensino público desestruturado, manco, ineficiente e alienante.

Com crianças e jovens crescendo e sendo educados pelo TikTok, pelos influencers das bets, pelos algoritmos do Markito, pelas insanidades do Muskinho Xwiteiro, dentre outras tantas figuras endeusadas pelo decadente antro de “falos brancos de pequeníssima medida” que chamamos de Faria Lima.

Por fim, não é sobre você acreditar nas suas divindades ou não. Não é sobre sua fé particular que rege sua mente e seu corpo. Não é sobre sua oração antes de comer ou dormir, a cruz no colo do seu peito ou a guia no seu pescoço ou pulso.

É sobre você entender que, enquanto a educação escolar não for compreendida como um espaço necessário para a promoção de pessoas críticas, com capacidade de pensamento lógico, baseado em fatos e na realidade, vamos continuar produzindo uma sociedade que se submete docilmente a seus exploradores, sob uma lógica hiperindividualista, voraz e perniciosa.

Bom…

Mas isso é pauta para outro dia, outro texto.

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