2025-07-03 Permissão para estar cansado

Eu estava ouvindo o podcast do Vidane, “Dentro da minha cabeça”, episódio 79, “O direito ao cansaço” (com participação da Ana Jansson), em que ele passa quase trinta minutos conversando sobre cansaço, preguiça e afins. Satisfeito que não fico em apenas ouvir as coisas, comecei a fazer pontuais anotações sobre o tema (não sobre o podcast).

Com considerável frequência eu falo sobre cansaço e exaustão. Provavelmente porque eu, cosntantemente, me sinto cansado, exausto, desprovido de qualquer ânimo ou disposição. Acontece que, de algum tempo para cá, além de escrever num blog que ninguém lê, eu decidi me munir de algumas informações ao falar sobre algum assunto.

Do momento que tomei esta decisão em diante, eu assinei um atestado de “tô lascado”. Isso porque, diferente de boa parte do TikTok e Instagram, eu busco ser bem claro sobre o fato de que eu não sou especialista em basicamente NADA! A enorme maioria das coisas que eu falo é OPINIÃO com algum embasamento, mas ALGUM embasamento é diferente de MUITO embasamento.

Feito este longo preâmbulo, vamos falar sobre: cansaço, postergação, estafa, exaustão, burnout, sociedade e mente.

De acordo com os estudos científicos, acadêmicos e literatura médica, organizando os termos numa espécie de escala de gravidade:

  • Cansaço: Sensação normal de necessidade de descanso caracterizada por fraqueza muscular, exaustão física e mental, representando uma resposta do corpo ao excesso de atividade.
  • Procrastinação/Postergação: Ato de adiar desnecessariamente uma atividade pretendida, necessária ou importante, apesar de esperar potenciais consequências negativas.
  • Estafa: Sensação de cansaço ou fraqueza constante que causa sintomas físicos ou mentais como insônia, irritabilidade e falha de memória.
  • Exaustão: Estado de desgaste extremo físico, mental ou emocional em que o corpo chegou ao limite e não consegue se recuperar com descanso rápido.
  • Burnout: Síndrome de exaustão emocional e estresse ligado ao trabalho, caracterizada pela falta de energia e sobrecarga emocional constante.

Sabe o que quase tudo isso listado acima tem em comum? Praticamente nenhum deles é CULPA de quem passa por qualquer um dos cenários, talvez possuam algum grau de RESPONSABILIDADE.

Há culpado(s), porém, por nós vivermos algum (ou alguns) destes cenários, mas quase NENHUM deles é apontado como CULPA e RESPONSABILIDADE de quem REALMENTE é culpado e responsável pelas pessoas viverem os piores quadros listados acima.

Ficou um pouquinho confuso, acho.

Vou tentar explicar: pelo senso-comum, a culpa/responsabilidade por alguém estar cansado, por alguém procrastinar, por alguém apresentar quadro de estafa, exaustão ou burnout, é da própria pessoa que está sendo drenada (integralmente) por estes cenários.

Uai… Mas não é escolha da pessoa não??

Então, na enorme maioria das vezes, não!

Se você já viveu uma desilusão por paixão amorosa, e/ou uma frustração no seu emprego, e/ou uma decepção profunda com um amigo, e/ou seu time já perdeu uma final de campeonato que estava “ganha”, você entende do que estou falando.

Se você está num contexto em que precisa estar produzindo (trabalho, estudo, casa, etc) por mais de 8h, por dia, a chance de você estar, AGORA, enquadrado em algum (ou alguns) do cenários listados é ENORME. No mínimo você está cansado. Estranho é se não estiver.

Vamos com mais informação?

Com base em alguns estudos do século XXI, que abordam a satisfação e o engajamento no trabalho, estima-se que uma pequena parcela da população, possivelmente na faixa de 10% a 20%, esteja em um nível de paixão e alinhamento com seu trabalho que os levaria a realizá-lo mesmo sem a necessidade de remuneração. Essa estimativa é baseada em dados como a pesquisa Gallup que indica que apenas 13% das pessoas “gostam de trabalhar”, o que pode ser um indicativo de um alto nível de engajamento e paixão. 90% dos brasileiros estão infelizes no trabalho segundo Survey Monkey (2021). 75% dos que responderam os estudos, e afins, mudariam de emprego (ou trabalho remunerado), se pudessem.

Qual a chance de você estar nos 10%?

Burnout virou arroz e feijão do brasileiro.

Então, jovem, vamos ao ponto: pare de se culpar por estar exausto, por sentir preguiça frequentemente, por postergar pendências, por se sentir “sem pique” pra coisas que até algum tempo atrás você ia fazer com bem menos incentivo.

A culpa não é sua. A responsabilidade não é só sua. O que drena sua energia é como as coisas funcionam. É sobre sufocarem você, estruturalmente, para ser sempre produtivo.

É sobre o efeito comparativo entre sua vida normal e a suposta vida espetacular dos outros nas “redes sociais”. É sobre a cultura te dizendo que quem tem $$$ é porque merece e suas posses são fruto APENAS do seu esforço e mérito.

Não, jovem. Não caia nesta cilada. Respire, fundo, beba água e permita-se descansar sempre que puder. Permita-se trocar de trabalho remunerado sempre que uma oportunidade melhor se oferecer. Cuide dos seus, cuide da sua comunidade, cuide de pessoas. Coisas passam, empresas passam, patrimônio vem e vai.

Ande, leia, converse, dialogue, durma bastante. Escreva, ria. Se permita fazer nada quando puder (e, acredite, você pode fazer isso muito mais vezes do que acredita) e descanse.

Nossa cultura quer te culpar por ser improdutivo. Não aceite esta culpa.

Silenciosamente apenas ignore o “chamado a ser produtivo o tempo todo”.

Absolutamente NINGUÉM é saudável sendo produtivo todo o tempo.

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