Você gosta de falar? Eu gosto, mas não de falar por falar. Gosto de pensar antes de falar, gosto de pensar sobre o que cada frase minha quer dizer. Gosto de refletir sobre o que ouço e, havendo algo para acrescentar, ter a oportunidade de dizer.

Daí que começam alguns dos meus conflitos e reflexões sobre este tema: falar, escutar e dialogar.

Escutar não é um dom, nem uma habilidade que está dada de nascença. Escutar é diferente de ouvir. Ouvir é perceber o som; escutar é dar atenção ao som. Ouvir (para quem ouve) é inevitável, é a mera capacidade física de perceber e codificar sons. Escutar está muito além disso. Tão além que alguém surdo é capaz de escutar, mesmo sendo fisiologicamente incapaz de ouvir.

Escutar demanda humildade, demanda atenção, demanda respeito. Escutar é uma escolha. Uma escolha com intenção. É ativa. É entender que o que o outro diz tem a prerrogativa de ser útil e válido (até que se prove que não é).

Ouvir não te torna capaz de falar. Ouvir não incrementa sua capacidade de trazer relevância ao que você fala. Ouvir não faz da sua fala algo digno de sequer ser ouvido, menos ainda de ser escutado. A única habilidade a ser desenvolvida que fará sua fala relevante é escutar. Apenas uma escuta ativa é capaz de agregar à sua capacidade de falar algo coerente, relevante, útil.

Retorno ao ponto inicial deste texto: eu amo falar, eu amo escutar, mas o que traz relevância para essas duas coisas juntas? As duas coisas juntas são essenciais para um diálogo.

Agora vou complicar um pouco, mas confie em mim: vamos terminar este texto melhor do que começamos.

Diálogo. O que é? Onde vive? Do que se alimenta? Como se reproduz?

Resumindo bastaaaaante: conversa é uma troca espontânea de palavras entre pessoas, geralmente informal e sem objetivo definido. Diálogo é uma interação em que há escuta ativa e busca de compreensão mútua, visando construir significado em conjunto, é necessariamente colaborativo. Já o debate é uma discussão estruturada, em que os participantes defendem pontos de vista opostos, com o objetivo de persuadir ou convencer — sendo mais competitivo do que colaborativo.

Há uns 25 anos, ouvi uma definição de diálogo que nunca mais saiu da minha cabeça: diálogo é a poesia de entrar em uma conversa que apresenta diferentes pontos de vista e vivências, sem saber no que essa conversa vai dar, nem quem você será ao fim dela (desde que não culmine, claro, em ataques pessoais, caso o diálogo tenha cores de debate).

A questão é que eu sou fascinado por diálogos. Eu me deleito. Acontece, porém, que no meu caso, eu tenho uma puta preguiça de conversas vazias, que não comunicam nada. Sabe aquela mensagem que chega no telefone com um “bom dia, boa tarde, boa noite” e a praga da pessoa não tem nada a dizer? Ela só quer sua atenção, nada além disso. É um ato tão egoísta! A pessoa te procura, ocupa seu tempo, para NADA! (neste momento eu estou BERRANDO por dentro)

Voltemos então ao tema: falar, escutar e dialogar.

Diálogos (os bons) demandam pessoas que escutam ativamente e pessoas que ponderam sobre o que irão dizer. Um bom diálogo é feito por duas (ou mais) pessoas que se importam com o que o outro diz e, simultaneamente, ao falar, se importam com a energia que o outro irá investir em ouvir, entender e processar o que escuta.

Diálogo bom é feito por quem fala e escuta com qualidade. Fala com qualidade quem escuta com qualidade. Escuta bem quem escolhe desenvolver escuta ativa. Isso demanda tempo e frequência. Demanda prática. Daí o falar flui melhor, funciona melhor. Resultado: bons diálogos. Tempo bem vivido. Tempo de qualidade.

Por fim, eu não estou dizendo que toda conversa precisa ser um diálogo, nem que todo debate precisa ser um diálogo. Eu só estou ponderando que conversas cotidianas, banais, me cansam. São como biscoito de polvilho: muito barulho, não alimenta e, se comer demais, faz mal. Um pouco de conversas aleatórias? OK. Um pouco de debate? OK. Muito de ambos? Não, obrigado.

Quer ganhar meu coração? Dialogue comigo. Com ou sem divergências. Escute, pondere, fale. Ciclicamente. Por horas. Traga algo novo, mesmo sobre um assunto velho. Construa algo novo em nossos diálogos. Ensine e aprenda, o tempo todo. Abra-se para dar e para receber.

Mas, se não quer ganhar meu coração, ok. Ninguém é obrigado.

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