Existe uma ferramenta narrativa muito comum que consiste em construir tensão ao longo de um texto ou história, independentemente da mídia utilizada, e, apenas ao final, apresentar a premissa com uma solução ou proposta. Mas hoje eu vou quebrar essa estrutura. Vou direto ao ponto. Desde o início, quero deixar clara a premissa básica deste texto, para que você o leia compreendendo melhor onde quero chegar.
Vamos partir do seguinte pressuposto: ninguém é, todo mundo está.
Agora, um exemplo. Recentemente, ouvi uma sentença dita sobre uma pessoa e fiquei me questionando sobre aquilo. A frase foi a seguinte:
“Fulano é desagradável de nascença. É naturalmente desagradável. Nunca vi alguém tão naturalmente desagradável.”
E eu me perguntei: será que alguém é naturalmente desagradável? Isso é realmente possível?
A construção de quem somos hoje é mutável. Ela resulta tanto da nossa genética quanto do contexto em que fomos forjados. Onde nascemos, quando nascemos, quais estruturas nos foram dadas, com o que tivemos contato ao longo da vida — tudo isso molda nossa personalidade, nossas reações, nossos gatilhos.
Então, por que essa pessoa se referiu ao fulano dessa forma?
Fui observar seus comportamentos, tentando entender o que poderia ter motivado tal julgamento. E cheguei ao seguinte ponto:
Fulano não costuma dar “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” por iniciativa própria. Mas, se alguém o cumprimenta, ele responde. Ok, já temos aqui um primeiro indício do “desagradável” na visão de quem o julgou.
Além disso, ele não demonstra grande empolgação por estar onde está — especificamente, no ambiente de trabalho. Ele não faz questão de parecer eufórico e feliz por estar sendo explorado, como acontece com muitos trabalhadores. No entanto, há aqueles que demonstram uma felicidade que chega a nos espantar. Como conseguem ser tão eufóricos e satisfeitos até descobrirmos que, por trás disso, há uma pancada de tarja preta ou um discurso meritocrático sustentado pela crença de que trabalham no “melhor lugar do mundo”, segundo a revista X?
Voltando ao fulano: percebi que, na verdade, ele não era desagradável. Ele simplesmente não correspondia às expectativas de quem o julgou.
Ou seja, ele foi rotulado como “naturalmente desagradável” apenas porque não se encaixava no modelo de euforia e disposição social que a pessoa esperava. Essa pessoa está tão acostumada — ou melhor, tão submersa — nesse personagem do “estou feliz onde trabalho”, “estou sempre disposto a sorrir e celebrar com todos” (com toda a carga de ironia e sarcasmo que essa frase merece) que, ao encontrar alguém que não compactua com essa encenação, a única explicação que consegue dar é que essa pessoa é “desagradável”.
Isso porque, em muitos ambientes de trabalho — principalmente em empresas —, o que é valorizado não é a competência técnica ou o resultado, mas a capacidade de interpretar um personagem. Em muitos casos, esse personagem pode ser o fator decisivo para uma promoção. Essa lógica está enraizada no modelo corporativo ocidental.
No fim das contas, fulano, que provavelmente se comporta de maneira mais sociável em outros contextos, simplesmente lida com o trabalho de outra forma. Ele está em outra frequência — e isso incomoda.
Por fim, não quero apresentar muitas conclusões definitivas. Esse é um tema ao qual eu sempre volto, trazendo novas reflexões, complementações e atualizações da minha visão sobre ele.
Mas o ponto onde quero chegar é o seguinte: muitas vezes, nos deparamos com pessoas em determinadas situações e, de forma taxativa, afirmamos que elas são aquilo que, na verdade, estão sendo naquele momento.
Você encontra alguém que está passando por um momento difícil. A pessoa está com fome, está atrasada, está com os boletos vencidos — e, naquele instante, ela parece intragável. Mas isso não significa que ela é intragável. Ela está irritada, está impaciente, está desgastada. Há uma enorme diferença entre ser e estar, e essa diferença é frequentemente ignorada.
Então, tome cuidado. Tome cuidado ao afirmar que alguém é algo quando, muito provavelmente, essa pessoa apenas está naquele estado, de forma passageira e contextual.
É sempre bom dar o privilégio da dúvida, principalmente quando seu contato com aquela pessoa não cobre as 24 horas do dia dela. Se você só vê um fragmento da vida de alguém, há uma grande chance de estar fazendo julgamentos totalizantes sobre uma realidade que você sequer conhece por completo.
Se puder, evite definir pessoas por adjetivos fixos. Analise comportamentos. Analise ideias. Mas não rotule indivíduos como se fossem estáticos.
Evite colocar CPF no meio de uma conversa quando o foco deveria estar nas questões em debate.
Enfim, é isso. O fim de semana está chegando, e, do nada, numa sexta-feira, esse tema me veio à cabeça por causa daquela sentença que ouvi. Achei extremamente injusta — especialmente porque, de certa forma, me identifico com essa conversa. Já fui alvo de julgamentos parecidos e já vi outras pessoas passarem pelo mesmo.
É curioso como muitos estão sempre prontos para dizer que fulano é, cicrano é, beltrano é, quando, na verdade, eles apenas estão.
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