É difícil falar sobre isso muitas vezes, mas aparentemente eu deveria encontrar uma forma sutil de dizer isso para outras pessoas, e talvez até para mim mesmo. A constância e a regularidade da vida cotidiana não são interessantes o suficiente para que você faça publicidade ou compartilhe tudo o que acontece no seu dia a dia.
Onde quero chegar? Nossa rotina, nossa vida cotidiana, é na maior parte do tempo completamente desinteressante, repetitiva e banal. E, ainda assim, isso não diminui seu valor. É importante dizer isso e fazer uma separação entre o que é importante e o que é interessante. Tudo o que acontece no seu dia é importante para a sua experiência de viver, mas nem tudo é interessante. A forma como você interage com seus colegas, amigos, pais, filhos, parceiros — tudo isso é importante, mas não necessariamente interessante. Especialmente quando falamos de compartilhamento constante, publicação e divulgação.
Isso me faz refletir sobre as relações: entre nós e nossos amigos, clientes, afetos, amores, romances. Nós temos, ou melhor, muitos de nós, na nossa cultura, têm o hábito de iniciar um processo de demanda crescente por atenção ao compartilhar tudo o que acontece no dia a dia com um parceiro ou par romântico, como se isso fosse necessário para tornar a relação interessante.
Mas, de forma resumida: não, não é interessante.
E mais: isso tem um efeito colateral chamado estafa. Essa sobrecarga de informações repetitivas, triviais demais, cria um excesso de demanda por atenção. Um dos efeitos desse compartilhamento constante é a desvalorização da atenção do outro. Quando você passa o dia compartilhando tudo o que está fazendo, isso pode se tornar cansativo, como uma televisão ligada na sala: um ruído constante, sem conteúdo relevante.
Imagine que você está em casa, fazendo suas tarefas — faxina, comida, cuidando da casa, cuidando de si. E, ao fundo, a televisão está ligada no mesmo canal de sempre, repetindo programas e opiniões que já foram ouvidas. Assim também é a vida: ela é repetitiva, cíclica. Por mais que você ache que sua vida é incrivelmente interessante, lamento dizer: ela não é. A nossa vida cotidiana, estatisticamente, é repleta de eventos importantes, mas pouco interessantes.
E aqui está o ponto: quando você ocupa de forma ruidosa a vida do outro enquanto está distante fisicamente, os momentos de presença, de reencontro, perdem o brilho, o sabor, a intensidade. O outro pode estar cansado, sobrecarregado, ou simplesmente entediado. É como o que chamamos de “carne de pescoço”: você sobrecarregou o outro com informações que não foram filtradas. E aqui, quando falo de filtrar, não é sobre omitir, mas sobre compartilhar apenas o que é relevante e interessante para ambos.
Quando há essa sobrecarga de demanda de atenção, os reencontros presenciais deixam de ter vitalidade. Isso acontece porque adotamos um modelo de interação baseado nas redes sociais, onde tudo é hiperexposto: cada passo, cada refeição, cada ida à padaria ou ao trabalho. É como se nossa relação com o outro também seguisse esse padrão de “influencer”, onde qualquer coisa é motivo para ser compartilhada.
O que tenho observado — em relações minhas, de pessoas ao meu redor, e no universo ao qual tenho acesso — é que as relações mais ricas e sedutoras são aquelas em que, nos momentos de ausência física, existe também um distanciamento online. Os contatos à distância são feitos de forma pontual, com cuidado, pensando em agregar algo ao outro ou à relação. Existe um respeito pelo tempo do outro.
Quando procuro alguém, faço isso com a intenção de tornar o momento agradável, interessante para ambos, e não apenas para suprir uma carência minha. Não busco a atenção do outro apenas para saciar uma demanda do meu ego. Procuro somar: seja demonstrando afeto, compartilhando algo relevante, ou até mesmo contando uma fofoca. Mas evito importunar o outro dezenas de vezes ao dia com coisas banais, porque respeito o tempo dele. E é justamente por amá-lo e respeitá-lo que faço isso.
Por fim, não acho que todas as interações precisem ser pautadas por relevância ou cálculo. Mas pergunto: o quanto das suas interações com alguém são para suprir uma demanda de atenção sua? Será que você busca ocupar o máximo de tempo do outro para satisfazer seu ego, para sentir-se importante?
Resumindo: você é capaz de amar o outro sem transformá-lo na sua fonte de suprimento emocional?
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