Você não é apenas um, nem outro. Você não é só um destes e também não é a negação de nenhum deles.

A gente ouve muitas afirmações categóricas no nosso cotidiano. Algumas delas a gente repete sem se dar conta, e elas acabam se constituindo nos nossos valores como verdades, sem qualquer reflexão. Eu, no entanto, tenho por hábito fazer o caminho inverso e questionar essas afirmações categóricas — o senso comum, como costumamos dizer.

Uma dessas afirmações é aquela que diz que fulano de tal “é o mesmo em qualquer lugar”. Em contrapartida, existe outra afirmação que diz que fulano de tal “é falso porque, em cada lugar, ele é diferente”. E aí eu me questiono o quanto a gente não se dá conta de que, na verdade, ninguém é o mesmo em todos os lugares. Ninguém é o mesmo em todos os contextos. Ninguém é o mesmo em todas as relações.

Ao mesmo tempo, o que precisa ser questionado é a coerência de ideias, valores e discurso. Coerência, sim. Isso é necessário. Faz sentido esperar por isso. Mas, ao mesmo tempo, não faz sentido esperar que sejamos “os mesmos” em todos os ambientes.

É impossível que eu seja o mesmo com o meu filho, e no ambiente de trabalho. São demandas diferentes, são interações diferentes. Não tem como eu ser o mesmo com o meu pai, com a minha mãe e com um grupo de amigos numa resenha de cerveja em casa. São estruturas de relações completamente diferentes.

Por mais que seja esperado que eu mantenha, como já disse, uma coerência de valores e discurso, uma vez que o ambiente demanda algo diferente, é normal que a gente aja de maneira diferente. Inclusive, em diversos estudos sobre o tema, isso é tratado como uma patologia: quando uma pessoa simplesmente não é capaz de adaptar seus comportamentos ao contexto.

É uma característica socialmente disfuncional quando alguém não consegue se adequar ao ambiente em que está inserido. E, quando eu digo “se adequar”, não é mudar seus valores — como já apontei —, mas ajustar as nuances do comportamento.

Não tem como eu agir dentro de um cinema como ajo em um churrasco. Não tem como eu agir numa sala de aula como ajo numa micareta.

E é justamente isso que me trouxe a essa reflexão. Se um dia você parar para pensar em quem você é, vai perceber que você é o amálgama, a união, a soma de todas as suas versões em todos os seus contextos.

Você é quem você é com seus pais. Você é quem você é com seus afetos. Você é quem você é com seus amigos, no trabalho, na escola, na rua, numa festa.

A soma de todos esses espectros de quem você é constitui, de fato, quem você é. Você não é apenas um, nem outro. Você não é só um destes e também não é a negação de nenhum deles.

O que nos forma, o que traduz quem somos, é justamente a soma do que somos em todos os contextos em que estamos — como lidamos com todas as pessoas e como lidamos com todas as situações.

E é essa soma que constitui quem somos: tão iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes, sendo apenas uma pessoa só.

E justamente por isso, cada indivíduo é único. É exatamente porque ninguém é igual que cada um de nós tem seu próprio valor.

O que cabe refletir é sobre a coerência de todos os “eus” que cabem em mim. Eles não precisam ser iguais — porque não têm como ser iguais.

Contextos diferentes exigem demandas diferentes. E saber lidar com isso é, acima de tudo, sabedoria e inteligência.

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