Existe uma questão na comunicação que é bastante comum e com a qual eu me deparo com frequência: o problema da conceituação das palavras utilizadas. As pessoas frequentemente empregam um termo que possui um significado específico, um valor semântico definido, para expressar outra ideia — às vezes até oposta ao sentido original ou, digamos assim, ao valor léxico e semântico estabelecido do termo.

Dito isso, e após este preâmbulo, vamos conceituar dois termos aqui para que este texto faça sentido até o final. Segura na mão do titio e confia — a gente vai chegar lá.

O primeiro termo que nós vamos definir aqui é liberdade.

Liberdade, do latim libertas, está relacionado a liber, que designa a condição de estar livre, em oposição à escravidão ou à submissão.

Tecnicamente, liberdade é a capacidade de agir conforme a própria vontade, desde que respeite os limites éticos, legais e sociais.

Filosoficamente, está associada ao livre-arbítrio e à autodeterminação. No âmbito jurídico, garante direitos fundamentais, como a liberdade de expressão e de locomoção. Mais do que apenas a ausência de coerção, liberdade implica responsabilidade e respeito ao coletivo.

Agora, o outro termo que vamos definir aqui é libertinagem.

A libertinagem possui uma conotação pejorativa, marcada por valores morais, religiosos e conservadores. Derivado do latim libertinus — inicialmente relacionado a escravos libertos — o termo passou a designar indivíduos que rejeitam normas sociais e dogmas religiosos, reacionários, especialmente na Europa dos séculos XVI e XVII. Ainda assim, essa associação continua sendo comum até os dias de hoje.

A libertinagem é frequentemente vinculada à imoralidade e à desordem, e sua crítica reflete o temor à autonomia e ao questionamento dos padrões estabelecidos. No entanto, ela também pode ser vista como uma forma de expressão da liberdade contra a repressão moral.

Pronto. Aqui definimos liberdade e libertinagem. Agora segura na mão do titio porque a gente vai conversar sobre esses dois termos e sobre os devaneios que eu tive enquanto refletia sobre essa questão.

Por causa do valor semântico das palavras em questão, algumas pessoas insistem em tratá-las como se fossem quase paralelas — como se uma fosse o destempero da outra, ou como se uma representasse o excesso da outra. Mas será que isso é realmente possível?

Na prática, não existe um paralelo exato entre esses dois termos, mesmo que ambos, em essência, abordem a mesma questão. De fato, liberdade e libertinagem lidam com o mesmo tema, mas a maneira como se manifestam é o que as distingue.

Agora, ao observar os seus valores, começamos um debate sobre qual é, afinal, a diferença entre liberdade e libertinagem. E já podemos afirmar uma coisa desde o início: tanto a liberdade quanto a libertinagem possuem características muito semelhantes — eu diria que 99,9% dessas características são iguais.

Porém, é importante destacar algo fundamental: em ambos os casos, o verdadeiro risco não está no exagero. Isso porque o exagero, nesse contexto, não é sequer possível. O risco, na verdade, está na falta de sensatez na prática dos atos. É quando se usa a liberdade ou a libertinagem como argumento para ultrapassar o “direito” alheio, para desrespeitar o que é bom para o outro ou para transgredir os limites do que é saudável.

E, quando eu falo em “saudável”, estou sendo bastante literal — me refiro à saúde física e psicológica. Ou seja, tanto a liberdade quanto a libertinagem não podem ultrapassar as garantias fundamentais do outro dentro daquilo que a nossa sociedade, hoje, escolheu estabelecer como limite legal.

Depois de toda essa “introdução” e das ressalvas necessárias, agora, sim, chegamos ao âmago da questão deste texto. Finalmente, estamos no ponto central desta reflexão.

Existe uma beleza inigualável e única tanto na liberdade quanto na libertinagem. Há algo quase poético em ver uma pessoa vivendo plenamente suas liberdades — podendo expressar suas ideias, viver e realizar seus propósitos conforme seus valores, sua própria ética e moral. Tudo isso, é claro, enquanto essas ações não ultrapassam os limites onde a ética e a moral deixam de ser pessoais e passam a causar malefícios intencionais a terceiros.

Ou seja, enquanto essa liberdade ou libertinagem é vivenciada no âmbito privado ou individual — ainda que público, mas sem ferir o coletivo — existe uma beleza que muitas vezes nós não valorizamos como deveríamos.

Sabe aquela cena clássica de alguém que acabou de concluir o ano letivo? A pessoa sai pela porta da escola, da faculdade ou de qualquer instituição de ensino com um olhar de dever cumprido. Ela carrega consigo a leveza de quem está pronto para viver as férias até o próximo ciclo — seja no semestre seguinte, no próximo ano, ou, quem sabe, até pela conclusão definitiva do curso e a conquista do diploma.

Esse momento guarda em si uma liberdade quase palpável, uma beleza que transborda no olhar, na postura e até na respiração. É como se, naquele instante, a pessoa verbalizasse e traduzisse, através do corpo, aquilo que a liberdade é — não apenas o que ela representa ali, mas o que ela significa em essência.

E existem inúmeras outras cenas que, com certeza, vêm à sua cabeça e que transmitem essa mesma sensação de liberdade. Eu, por exemplo, tenho uma imagem muito específica gravada na memória. E eu preciso narrá-la para que ela faça sentido e para que você compreenda, de fato, o porquê deste texto existir.

Existem pouquíssimas pessoas ao meu redor com quem eu posso ter diálogos saudáveis, livres, libertinos e prolíficos — daqueles longos o bastante para perdermos completamente a noção da hora. Isso acontece, principalmente, por alguns fatores. Desde, por exemplo, uma afinidade na bagagem de conhecimento e informação adquirida ao longo da vida, passando por afinidades nas experiências vividas, na construção de valores morais e éticos, até a afinidade no prazer quase subversivo de desafiar a linha tênue entre o certo e o errado.

Eu tenho um verdadeiro prazer — quase fetichista — em vivenciar diálogos nos quais eu possa dizer tudo o que penso, tudo o que acredito, tudo o que experimento, sem a menor preocupação com o julgamento da pessoa com quem estou conversando. Há algo de incomensurável nesse prazer de verbalizar à vontade, sabendo que o meu interlocutor está mais interessado em me ouvir, compreender e, a partir disso, produzir um feedback, uma interpelação ou até uma expansão do que eu propus — ao invés de estar preocupado em me julgar ou rebater gratuitamente apenas pelo prazer de confrontar, muitas vezes de forma personalista e pejorativa.

Encontrar pessoas com quem eu possa estabelecer esse tipo de diálogo livre, com vernizes de libertinagem, é um verdadeiro frescor em meio a desgraça cotidiana da minha vida. Poder me sentar com alguém — seja em qual contexto for, seja onde for — e simplesmente verbalizar e ouvir o outro, palavras ditas sem medo ou receio, é algo raro.

Para finalizar, é importante voltar ao início deste texto, onde eu fiz questão de destacar as expressões liberdade e libertinagem. Se vocês perceberam, ao longo do texto, eu quase sempre as utilizei juntas, como pares. E isso não foi por acaso.

No fim das contas, a única diferença entre o livre e o libertino é quem está falando — quem está apontando o dedo, quem está julgando. Porque, do ponto de vista prático, material, a vivência de um libertino é, sim, uma vivência livre.

E aí fica a pergunta: você, que se considera uma pessoa livre, está mesmo satisfeito com as amarras morais que te impedem de ser libertino?

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