Heróis são apenas narrativas, são ficções que criamos para sobreviver
Heróis não existem. O que existem são pessoas, apenas pessoas, vivendo suas vidas, dia após dia, em consequência dos universos que habitam. Pessoas que acordam, se alimentam, se hidratam, agem, reagem, sorriem, choram, transam e dormem. Pessoas que tomam decisões baseadas na sua história, na sua experiência, nas suas vivências. Pessoas sempre foram e sempre serão apenas pessoas.
E, no entanto, criamos heróis. Construímos figuras mitológicas, imagens projetadas, narrativas cuidadosamente lapidadas para transformar alguém que é só humano em algo maior do que a própria vida. Sob um ponto de vista muito específico, sob uma narrativa muito bem articulada, essas pessoas passam a interpretar (ou são levadas a fazê-lo) o papel do herói. Mas o herói, essa figura que idealizamos, não é real, nunca foi, nunca será. Ele é uma ficção.
Um exemplo disso é o que Ayrton Senna foi para tantos (mas poderia ser qualquer outro atleta). Não era só um piloto. Ele era o símbolo da perseverança, do patriotismo, da superação, de uma espiritualidade elevada. Tornou-se a projeção de nossos sonhos e daquilo que aspirávamos enquanto sociedade. Mas, no fim, Senna era apenas uma pessoa. Alguém que acordava, se alimentava, vivia, como todos nós. Alguém que até tinha um talento extraordinário, mas cujas decisões, ações e reações eram moldadas pela sua vivência e pelo seu contexto. Nada mais.
E talvez o mais interessante não seja o herói em si, mas o porquê dessa construção. Parece que precisamos desses mitos para nos dar esperança, para encontrar propósito, para enxergar algo maior que nós mesmos. É um mecanismo, talvez, para lidar com a fragilidade da nossa condição humana. Mas é importante lembrar: heróis não são pessoas. Heróis são narrativas, são ficções que criamos para sobreviver.
O que existem são pessoas.
Pessoas, com todas as suas virtudes e falhas, seus triunfos e quedas, são, na verdade, mais fascinantes do que qualquer herói que possamos inventar. Porque no final, reconhecer que são apenas pessoas nos lembra daquilo que também somos: humanos.
Ser humano é tudo o que precisamos ser.
É tudo que podemos ser.
É o que somos, nem mais, nem menos.
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