E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar
(Encontros e Despedidas, Milton Nascimento)
O trem que parte da estação, o barco que zarpa do cais, a porta do carro que se fecha, a poeira que sobe na estrada, o aceno de despedida, a cabeça abaixada ao caminhar, a lágrima…
Os olhos que se fecham no último fôlego, o médico e a notícia indesejada. O olhar frio, o corpo gelado, o fim de um ciclo.
Nossa cultura não sabe lidar com isso, não nos ensina a lidar com isso. Nossa cultura adora, venera e romantiza o sofrimento da partida, o sofrimento do fim de um ciclo, do fim da vida de alguém enquanto ser biológico…
Outrora, quantas e quantas vezes, na sua vida, um ciclo se encerrou e você não sofreu, mas celebrou? Quantas vezes você se despediu e não precisou viver o luto porque o tempo vivido, ao lado daquele alguém — ou alguéns— foi um tempo que valeu a pena? Passamos tempo demais lamentando a ausência, ao invés de nos deliciarmos com a presença. Ao invés de celebrarmos as memórias boas, os aprendizados, o riso compartilhado, o choro enxugado nos abraços.
As celebrações vividas com aquela pessoa, ou pessoas, parecem ser esquecidas diante da contemplação da dor da ausência. Esquecemos da beleza da presença. O quão belo é — e/ou foi — o tempo vivido e compartilhado com aquelas pessoas.
Nos seguramos, como se fosse a coisa mais valiosa do mundo, à dor, e deixamos escapar a felicidade e a alegria do que foi vivido. Algumas vezes, deixamos aquilo virar mágoa, ódio, rancor… Por nada. Por nada. Não se ganha nada, não se acrescenta nada. Ninguém melhora. Ninguém fica melhor.
Partir e se despedir muitas vezes realmente não é o que se idealizou, ou se sonhou. Mas é parte da vida. É parte inegável da vida. É parte inerente do que é viver. Como diz a música: chegar e partir são dois lados da mesma viagem. Negar que a partida dói — porque a presença é/foi maravilhosa — além de insensível e incoerente, é escolher o rumo mais infrutífero da conversa.
Tenho certeza de que todo mundo já perdeu e/ou se despediu.
Não há exclusividade nisso.
Por isso, prefiro olhar para todas as vezes em que pude experimentar o mútuo deliciar do tempo compartilhado.
Porque isso honra o que foi vivido, o que foi compartilhado e o que nos faz bem.
O que nos faz seguir vivos.
Deixe um comentário