Era manhã de sábado.
Missão: comprar pão!
Me deparo com a fila para pegar o pão de sal, novinho. Ok, já estou irritado.

Lá estava uma senhora, aquele ser angelical de luz (!), ocupando o espaço de duas pessoas enquanto decidia, com calma monástica, quantos e quais pães ela levaria. Olhava, pegava, quase cheirava e… colocava de volta! Atrás dela, uma fila crescia (como espartanos felizes diante de Xerxes) na proporção que minha paciência sumia. Não era nada pessoal, claro (longe de mim!!). Não era com a senhora ou com os pães. Era com o “gesto” daquela demora. De repente, parecia que a humanidade se resumia àquela fila interminável e eu questionava: por que (car*lhos) inventei de sair de casa, de novo!?

De certo modo, esse desânimo com as pequenas burocracias e o tempo perdido faz eco à MISANTROPIA, embora ela não seja exatamente isso (mas é isso também, rs). Enquanto aquele Anjo de Luz continuava a avaliar os pães, percebi que meu incômodo não era só pela espera, mas por ver ali um símbolo do que eeeeeu julgava serem falhas humanas: a falta de urgência, o apego a rituais inofensivos (mas irritantes), etc. Os misantropos se sentem assim em grande escala e constantemente: questionam se a humanidade em si é falha, indolente, tão míope quanto a fila para pegar um mísero pão. A misantropia não é sempre um ódio direto aos outros, mas uma irritação latente com o conjunto dos defeitos que se repetem.

Ser misantropo em um mundo de “gente sorridente” é desafiador. Fica difícil para o misantropo justificar o seu desgosto sem parecer amargo ou ingrato. Somos incentivados a valorizar o “convívio”, mas mékifaz quando o convívio se torna um exercício de paciência exaustivo? A misantropia vira um conflito silencioso, em que o “adepto” é aquele que prefere a solidão e um pouco mais de silêncio.

Porém, assim como aquele episódio do pão me fez pensar no que realmente importa na padaria (pegar o pão e sair logo), a misantropia pode nos ensinar a valorizar o que realmente nos agrega. Use a irritação como uma bússola para encontrar algo que preste como norte.

É f*da, eu sei, mas “filas” são apenas obstáculos inevitáveis até o pão.

Naquele dia comprei bolo. Maninha levou o pão.

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