Eu tenho dificuldade em entender por que algumas pessoas não compreendem que é possível amar pessoas diferentes de maneiras distintas, sem que esse amor seja concorrente. Quem acompanha meus textos e posts nas redes sociais sabe que esse é um tema recorrente, pois algumas pessoas próximas me perguntam sobre isso – por curiosidade, afinidade, interesse ou apenas para se informar, mesmo que não adotem essa perspectiva.
Costumo explicar usando uma analogia: você pode ter três amigos com quem mantém relações específicas, dedicando atenção a cada um. O fato de amar João, Pedro e Maria não significa que, para amar mais o João, você precise amar menos o Pedro e a Maria. Não entendo por que aplicar essa lógica às relações afetivas e íntimas parece tão difícil para alguns. Por que ter uma relação com João, Pedro e Maria precisa ser visto como algo concorrente? A resposta está na ideologia romântica monogâmica, que impõe a construção de uma família tradicional com uma única pessoa e na legislação que só permite formar patrimônio conjugal com um parceiro. Caso você quisesse dividir bens com mais de uma pessoa, precisaria abrir um CNPJ e incluir todas como sócias.
No entanto, o ponto principal é que nem todas as relações se baseiam na construção de patrimônio. A monogamia tradicional prioriza a perpetuação patrimonial familiar, mas, ao retirar o patrimônio da equação, dissolve-se grande parte dos conflitos que costumam ser associados a modelos não-monogâmicos.
Monogamia e não-monogamia não precisam ser vistas como inimigas; são apenas formas diferentes de organizar a vida afetiva e social. Desde que foi instituída, a monogamia tem servido como uma ferramenta para preservar o capital no núcleo familiar, mas essa é uma construção que vai contra a natureza humana. Quem deseja viver em monogamia, tudo bem, mas que abrace esse modelo de verdade – não pela metade, de forma incoerente. E quem prefere explorar outras formas de relacionamento também deve ser livre para isso.
A não-monogamia respeita a individualidade e os impulsos naturais. Já a monogamia oprime – e continuará oprimindo enquanto seguir no formato que conhecemos hoje.
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